Memória

“Não vejo protagonismo dos técnicos-administrativos nas últimas décadas, vejo um retrocesso”

Ana Maria Ribeiro, técnica em assuntos educacionais da UFRJ desde 1988, e ex-coordenadora-geral do Sintufrj entre 2001 e 2008, faz um balanço dos 25 anos de lutas da entidade. Em sua opinião, a categoria acumulou vitórias até 2005, e o ápice foi a conquista do PCCTAE. Mas nos últimos 13 anos as disputas internas e as construções de coletivos invadiram a esfera dos objetivos da luta sindical.

Em 1998 Ana Maria foi eleita para a primeira bancada de técnico-administrativos ao Conselho Universitário. No período em que esteve na direção do Sintufrj foi representante da categoria no Conselho de Ensino de Graduação (CEG). De 2011 a 2016, ficou afastada da universidade para atuar na Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos onde ocupou funções de assessoria e gerência nas áreas administrativas de transparência pública e gestão documental. Após o golpe que tirou do governo a presidenta Dilma Rousseff, ela retornou à UFRJ, e atualmente está lotada na Decania do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH).

 

A história da técnica-administrativa com a UFRJ teve início na década de 1980, quando ingressou no curso de Matemática e logo se tornou uma das lideranças do movimento estudantil da universidade e da União Nacional dos Estudantes (UNE). Ana Maria fez mestrado em Ciência da Informação na UNB.

 

Atualmente Ana Maria vem colaborando com o oferecimento de cursos de extensão (PR5) e capacitação (PR4) sobre Gestão Documental e Transparência Pública para preparar os servidores para implantação do SEI – Sistema Eletrônico de Informações, do qual é defensora e que representa, a seu ver, inovação e melhorias para o serviço público e o atendimento aos cidadãos. Colabora também com palestras na Semana de Ambientação aos novos concursados sobre Serviço Público e Compromisso Social.

 

Hora de reavaliações

Apesar de não estar na universidade quando da fundação do Sintufrj (licença), acredito que foi um passo importante para nossa categoria a transformação da associação em sindicato, que foi a nossa conquista na Constituição de 1988.

 

Um balanço positivo é ser um sindicato aberto ao conjunto dos servidores técnico-administrativos e docentes e de buscar discutir a participação mais atuante na política institucional e não apenas em relação à econômica do ponto de vista salarial. O estatuto do sindicato tem um claro caráter de classe e princípios democráticos que precisamos reavivar nesses momentos sombrios.

 

Acho que o Sintufrj precisa analisar melhor o perfil de nossa categoria para melhor representá-la. Há três contingentes com objetivos e perfis diferentes: há uma parcela que ingressou durante a ditadura militar e na sua maioria está aposentada, no nível médio, e não teve oportunidade de maior qualificação – anseia uma entidade social recreativa e resultados pragmáticos financeiros.

 

Outra parcela ingressou nos anos 1980, que participou das lutas pelas Diretas Já, pela Constituição Federal de 1988 e pelo RJU de 1991, na sua maioria de nível intermediário (classes C e D) que se qualificou ao longo da carreira – aqui há grupos que se diferenciam entre os que buscaram se qualificar e os que pararam no tempo, e nesse sentindo se comportam como o primeiro grupo.

 

E temos a parcela que ingressou a partir de 2003 (o maior volume entrou com o Programa de Reestruturação e Expansão (Reuni) a partir de 2010) na sua maioria na classe D, mas que já entra com curso superior, maior qualificação e com usufruto de uma carreira já estabelecida, e que não percebe a importância da organização sindical para as conquistas econômicas e institucionais. É necessário construir um canal de diálogo com essa nova geração.

 

Nesse sentido, o balanço negativo é o de que na última década o Sintufrj não conseguiu construir uma política que integre a categoria, que tem esses três perfis bem diferenciados. Avalio que a defesa da UFRJ e do fazer como local de trabalho é um bom começo.

 

Vitórias e dificuldades

O sindicato nasceu em um momento político nacional muito importante, logo após um aventureiro, caçador de marajás, que perseguiu os servidores públicos, confiscou a poupança, ser eleito presidente da República pelo medo que foi plantado na população, ao novo. Em 1994, um projeto neoliberal ganhou as eleições e foi necessário um sindicato forte para arrancar vitórias na Justiça.

 

As pessoas podem ter memória curta, mas é bom lembrar que tivemos muitas lutas, greves, fomos à justiça para não termos perdas salariais maiores do que tivemos. Somos a única categoria que mantém a paridade entre ativos e aposentados, não aceitamos as chantagens do governo FHC, como o projeto GERES.

 

Em 2001, conseguimos incorporar uma gratificação de 160% ao salário. O Sintufrj avançou no Projeto Universidade para os Trabalhadores com o Curso Pré-Vestibular e de Alfabetização, com a conquista da representação nos colegiados superiores, e avançou com a nossa carreira, o PCCTAE em 2005, que contou com forte participação de diretores do Sintufrj e servidores membros do GT Carreira da Fasubra.

 

Até  2005 conseguimos vitórias por conseguir unidade na categoria, mas nos últimos 13 anos as disputas internas e as construções de coletivos invadiram a esfera dos objetivos da luta sindical. Os GTs da Fasubra são um exemplo em que perderam seu papel formulador de política, para armar a categoria, passando a ser um espaço de disputa interna.

 

O que faltou?

Durante os governos Lula e Dilma, onde havia diálogo com os sindicatos e reitorias, não houve nenhum movimento de ambas as partes de buscar a construção de um Acórdão junto ao Tribunal de Contas da União (TCU) que regularizasse as rubricas que recebíamos os 26%, desde 1994, e os 28%, desde 2002. Mas a oposição ao governo era mais importante do que buscar conquistas para a categoria.

Cobrar da reitoria uma política de avaliação que leve em consideração o fazer institucional e não aquele formulário arcaico que se mantém há mais de 30 anos (um que marca nota 4 – sic!).

 

Cobrar da reitoria a criação do Conselho de Administração como espaço colegiado para discussão da política de pessoal técnico-administrativo saindo da relação interpessoal chefia-servidor.

 

Projeto Memória resgatando as lutas da categoria e sua participação na instituição UFRJ.

A criação de uma Escola de Governo voltada para capacitação de pessoal para a gestão pública universitária.

Um acompanhamento do sindicato com as representações nos colegiados superiores e nas unidades/decanias intervindo nas políticas institucionais, conhecendo assim os reais problemas dos trabalhadores.

 

Retrocesso

Não vejo protagonismo dos técnicos-administrativos nas últimas décadas, vejo um retrocesso. Não considero ter tido três Pró-Reitores na Administração Central como protagonismo. É importante a ocupação destes espaços, mas de nada adianta se o respeito com o servidor técnico-administrativo não é ampliado e consolidado.

 

Há desprezo ao conhecimento e experiência acumulados; há perseguição aos que demonstram um conhecimento ou dedicação ao trabalho que realizam; há desconsideração na dispensa em funções, estes são alguns dos acontecimentos que vêm ocorrendo com frequência na UFRJ e que mostram um retrocesso ao espaço conquistado nos anos 1980.

 

Ao mesmo tempo em que há um aumento expressivo da qualificação dos técnicos-administrativos, não foram criados os canais de inserção nas esferas de decisão das políticas institucionais, principalmente nas unidades acadêmicas/administrativas/hospitalares. Com isso, aumentam os conflitos, inclusive dentro da própria categoria.

 

Desafios

Um dos principais desafios está em nossa categoria se identificar como servidor público de universidade pública e ter consciência de que sem ela não existimos. Portanto, precisamos ter unidade em defender a universidade pública, o nosso sustento, pelo menos isso – já que o individualismo anda forte.

 

Estamos diante de um segundo turno em que a passionalidade de alguns (tem gente que tá com um ódio do PT compreensível pela carga de ataques e versões que recebe todos os dias na mídia e dentro da universidade) vem sobrepondo a razão. As pessoas não estão pensando com razoabilidade no amanhã, no seu salário, no seu sustento, no seu espaço de trabalho.

 

Não há nenhuma chance de termos aumentos, de retomarmos negociações de carreira e das ações judiciais com a continuidade da atual política ou seu agravamento, como defendido pelo candidato da privatização, assim como é enorme a chance de quebrar a igualdade de tratamento entre ativos e aposentados.

 

Gostando ou não do Haddad, foi com ele como ministro que conquistamos o aumento na tabela de qualificação de nossa carreira, conhece. Ele defende nossas universidades, e poderemos ter diálogo para retomada das negociações sobre nosso futuro. É uma questão de sobrevivência.