Mulheres na Ciência: apesar de casos de protagonismo, ainda há luta por igualdade

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Data celebra a presença feminina na pesquisa científica, que, mesmo diante de avanços, ainda é pouca

A psiquiatra brasileira Nise da Silveira. A matemática espanhola Maria Gaetana Agnesi. Ada Lovelace, creditada como a primeira programadora do mundo. A “mãe da física moderna” Marie Curie. A geneticista brasileira Mayana Zatz.

Virginia Apgar, criadora da Escala de Apgar, um exame que avalia recém-nascidos em seus primeiros momentos de vida. Jaqueline Goes de Jesus, responsável pelo experimento que levou ao sequenciamento do SARS-CoV-2 ao lado da pesquisadora Ester Sabino.

Esses são alguns nomes de mulheres que provaram que a ciência, principalmente no campo das ciências exatas e biológicas, também é um espaço feminino, e que merecem ser lembrados neste 11 de fevereiro, quando é celebrado o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência.

Segundo Camila Malta Romano, do Laboratório de Virologia do Instituto de Medicina Tropical da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), dados de 2020 mostram que as mulheres constituem 43% da população de pesquisadores no Brasil. No entanto, o recorte por idade e área de pesquisa aponta para diferenças discrepantes.

“Entre as mulheres jovens que fazem doutorado, mestrado e pós-doutorado, é quase 44%, o que diminui entre mulheres que coordenam grandes projetos, aí é menos de 20%”, afirma Romano.

Já na relação entre áreas de biológicas, exatas e humanas na Europa, por exemplo, a participação das mulheres na área de exatas é de aproximadamente 10% no máximo . “No Brasil deve ser menos ainda. E chega a 50% na área das ciências humanas, principalmente letras e psicologia.”

Dados da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) mostram que apenas 14% dos integrantes da Academia Brasileira de Ciência são mulheres, sendo 8,9%  da área de exatas, 20,4% de biológicas e 18,2% das humanidades.

Os dados mostram que “ser pesquisadora é muito difícil para a classe feminina. Você pode até conseguir fazer pesquisa, mas para você conseguir fazer um bom financiamento, para acreditarem que você pode tocar um grupo de pesquisa, aí é já uma discriminação velada”.

Para Romano, a dificuldade está para as mulheres que querem seguir uma carreira, independente da área escolhida. “Emprego todo mundo precisa ter e tem, o que é difícil ter de fato é uma carreira”, que demanda muito e cujas recompensas demoram a vir, além de não ser uma opção acolhedora para as mulheres, justamente pelos dados.

“Acaba desestimulando. Porque entrar para competir em um campo onde tem menos de 10% de mulheres, sabendo que a chance de conseguir uma posição de destaque é muito pequena? Não é todo mundo que se arrisca.”

Em suas palavras, há falta de incentivos para que as mulheres possam provar do que são capazes. E não apenas para as mulheres, para a população negra e indígena ainda mais.

“Para ser um pesquisador tem de ter feito uma faculdade e de preferência uma pós-graduação. Para conseguir financiamento dos principais órgãos de fomento, precisa ter um doutorado. E aí olha para a educação básica, média e superior, qual é a porcentagem de negros, mulheres e indígenas que de fato conseguem concluir tudo isso?”, questiona Romano.

Ainda assim, a pesquisadora acredita que o cenário está mudando e deve se transformar ainda mais na medida em que as mulheres conseguem provar a própria competência. Para ela, não basta levantar uma bandeira, é necessário mostrar “que a gente consegue exatamente a mesma coisa que um homem consegue fazer”.

 

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