EXCLUSIVO: Pesquisa indica que 26% da comunidade universitária adoeceram por covid-19

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De cada quatro participantes da investigação, um informou ter adoecido por covid. Também preocupa a constatação de comorbidades entre os servidores da instituição, como hipertensão, diabetes e sobrepeso. Os resultados desse trabalho inédito realizado na universidade foram apresentados em primeira mão ao Sintufrj.

O estudo Epicovid UFRJ – levantamento realizado nos quatro primeiros meses deste ano – apontou que 26,5% da comunidade universitária da UFRJ (quase três mil pessoas) foram acometida pela covid-19. De cada quatro respondentes, um informou adoecimento pela doença. A pesquisa apontou também que a UFRJ refletiu o comportamento dos casos no Rio de Janeiro. 

“A estimativa de 26,5% pode estar superestimada, mas ao observarmos o padrão da curva epidêmica que foi semelhante à do Rio de Janeiro, é o que se refletiu e está refletindo entre nós”, explicou o coordenador da pesquisa, Antônio José Leal Costa, professor de epidemiologia do Instituto de Estudos e Saúde Coletiva da UFRJ (Iesc) e atual diretor do instituto.

Trabalho inédito 

“Esse é o único levantamento feito até agora sobre a covid-19 relacionada com o conjunto da universidade, a partir da participação voluntária em responder ao questionário do estudo, que permite descrever a ocorrência da pandemia na comunidade da UFRJ”, destacou o pesquisador.

Os resultados são preliminares e envolveram 11.250 pessoas, entre servidores técnico-administrativos e docentes, alunos de graduação e pós-graduação, pós-doutorandos, terceirizados, permissionários e aposentados. Os campi de Macaé e Caxias também tiveram participantes, mas a maior parte dos respondentes à pesquisa é oriunda da Cidade Universitária, na Ilha do Fundão, e da Praia Vermelha.

Fonte de consultas para uma política de saúde do trabalhador 

De acordo com o epidemiologista, apesar de a comunidade universitária em seu conjunto reunir cerca de 80 mil pessoas e a pesquisa abranger somente 11.250 desses integrantes, o estudo aponta estimativas e indicadores importantes em relação ao adoecimento por covid-19 e em relação à saúde em geral da comunidade universitária.

Dentre os servidores, responderam 1.857 docentes e 1.254 técnicos-administrativos, reunindo 27,5% do total. Os alunos de graduação – 5.675 e pós-graduação – 2.223 concentraram 70% da pesquisa. 

“Temos aqui estimativas que nos permitem, ainda que de maneira incompleta, termos um ponto de partida para pelo menos iniciar uma discussão a respeito da necessidade e da pertinência de políticas de saúde, que podem e devem ser pensadas internamente dentro da UFRJ, voltadas para a nossa saúde como comunidade acadêmica”, afirmou Leal Costa.

Na avaliação geral do professor, “por mais que possamos ter imprecisões, os resultados da pesquisa são de grande contribuição (para o estabelecimento de uma política de saúde na universidade)”. E acrescentou: “Porque permite não apenas se ter estimativas globais, como também estimativas por diferentes grupos que compõem a nossa comunidade. E, como já era esperado, identificamos desigualdades. Isso significa que a gente deve olhar para o conjunto da nossa comunidade e pensar políticas de intervenções que lidem com essas desigualdades”, propôs o diretor do Iesc. 

“Cabe pensar uma política global (de saúde) para a nossa comunidade, mas essa política de saúde deve atentar também para os padrões de desigualdades, tanto no que diz respeito ao adoecimento por covid e também em relação às condições crônicas de comorbidades que se mostram de forma diferenciada e desigual dentro da universidade. Precisamos entender essas desigualdades e atuar no sentido de pensar estratégias específicas para os diferentes grupos da nossa comunidade, com o objetivo de reduzir as desigualdades prevalentes entre nós”, complementa.

Planos futuros: “Esse estudo é uma contribuição importante. Estamos concluindo a análise e pretendemos divulgar os resultados para toda a comunidade universitária. Feito isso, pensamos na possibilidade de um segundo inquérito para continuar a pesquisa, não só para continuar acompanhando a frequência de adoecimento pela covid, como também os aspectos da vacinação, porque o estudo começou a ser feito no início da vacinação”. 

Sexo, idade e cor da pele

Os participantes da pesquisa foram divididos também por sexo, idade e cor da pele. 

Nos sexos masculino e feminino, as frequências de acometimento da doença foram as mesmas, em torno de 26%. Já o adoecimento pela doença foi maior entre as pessoas na faixa etária entre 25 e 39 anos, 28,8%. De 18 a 24 anos (26,5%) e de 40 a 59 anos (25,4%). A partir dos 60 anos diminui para 16%. 

Segundo Leal Costa, o resultado apurado está muito relacionado com a distribuição etária das categorias na comunidade universitária. Em relação, por exemplo, ao acometimento dos mais jovens, está ligado ao universo dos alunos. Já na faixa etária de 60 anos, a incidência da doença está entre os servidores, técnicos-administrativos e docentes. E, por último, a interpretação para a menor frequência do acometimento da doença pode estar ligada ao isolamento social e ao trabalho remoto.

Pardos e pretos foram os mais atingidos

A característica cor da pele autodeclarada – branca, parda, preta, amarela e indígena – mostrou algumas variações em termos da frequência de acometimento da doença. Para a amarela e a indígena, a estimativa é imprecisa devido ao número reduzido de respostas.

Entre os que se declararam de cor branca, a frequência da doença foi de 25%; já a parda chegou a quase 30% (29,6%) e a de cor preta, 28,4%. A análise segundo a cor da pele autodeclarada em estudos epidemiológicos é algo muito comum, explicou o epidemiologista.

“Nós utilizamos (a característica cor da pele autodeclarada) com o interesse principalmente de estudar as desigualdades sociais existentes entre os grupos. É como um marcador de condição social e econômica mostrando como ocorre nos estudos epidemiológicos algumas desigualdades com essas características. (A pesquisa) sinalizou frequências maiores do adoecimento para as categorias parda e preta, que estão associadas de forma geral à nossa população como um todo em situações de maior vulnerabilidade”, aprofundou o estudioso.

Ele observou que, “ainda que estejamos falando da comunidade da UFRJ, muito provavelmente essas características entre nós também são indicativas de algum grau de vulnerabilidade”.

“Esses resultados”, continuou, “nos permitem um olhar um pouco mais detalhado para nós mesmos no sentido de perceber como esses processos de saúde e adoecimento, no que diz respeito à covid, estão ocorrendo entre nós. Como esperávamos, não nos surpreende essas variações em termos de desigualdades no padrão heterogêneo de adoecimento.”  

Técnicos-administrativos

A pesquisa mostrou, com exceção da cor da pele, que as diferenças, quando analisados somente os técnicos-administrativos, são semelhantes às diferenças observadas para o conjunto da universidade. 

Com relação ao sexo, a diferença entre os técnicos-administrativos é pequena – 24,6% das mulheres e 22,9% dos homens referiram adoecimento. 

No que diz respeito à idade, há também uma pequena diferença. A idade mais acometida entre os técnicos-administrativos foi de 40 a 59 anos, 27,3%. 

“Pode também estar refletindo a própria composição etária do corpo técnico. Mas chama a atenção. A idade com maior frequência de acometimento – 40 a 59 anos (27%) – é uma faixa etária mais envelhecida em relação ao conjunto da universidade, que foi de 25 a 39 anos.”

Olhando somente para os técnicos-administrativos, a cor da pele também chamou a atenção. Nos que se declararam de cor branca, a frequência de adoecimento foi de 22,5%, mais baixa que o conjunto da universidade, que foi de 25%. E as diferenças em relação às categorias pardas e pretas foram mais acentuadas.

Entre os técnicos-administrativos que se declararam de cor parda, 26,7% referiram adoecimento por covid, e entre os que se declararam de cor preta, 30,2% referiram o adoecimento. “Então, entendendo as categorias cor da pele autodeclarada como marcadores de condições socioeconômicas ou desigualdades sociais entre os técnicos, está aí uma diferença mais evidente em termos de frequência de adoecimento para as cores pardas e principalmente pretas em comparação à categoria autodeclarada como branca”, observou o pesquisador.

Comorbidades: hipertensão e diabetes preocupam

A pesquisa levantou também as condições de saúde que implicam maior risco no que diz respeito à covid-19. Chamaram a atenção a hipertensão e a diabetes. Leal Costa repete que todo o levantamento foi feito com base nas respostas dos participantes sem solicitação de quaisquer exames, uma metodologia mundialmente utilizada em estudos epidemiológicos.

Do total dos pesquisados, informaram saber ter hipertensão 11%, ou 1.241 pessoas. Em relação aos 1.254 técnicos-administrativos participantes, o percentual sobe para 27%. Ambos considerados elevados pelo pesquisador.

No caso de diabetes, cerca de 5%, ou seja, 539 pessoas informaram saber serem diabéticos. Em relação aos técnicos-administrativos, 11%, ou 140 dos pesquisados, informaram saber da doença.

“Então essas prevalências de 27% com relação à hipertensão e 11% em relação à diabetes são frequências bastante elevadas e preocupam, considerando serem condições de risco para as formas mais graves de covid. Mas também preocupam por si só como morbidades que podem resultar em danos e limitações importantes para a saúde”, alertou o epidemiologista.

A composição corporal foi também outro indicador que chamou muito a atenção na pesquisa. Foram separados os com menos de 60 anos e os de 60 anos ou mais.

No conjunto da universidade, 28% informaram estar com sobrepeso. “Pedimos o peso e altura, e com isso calculamos o índice de massa corporal que é utilizado em estudos populacionais para indicar sobrepeso e obesidade.”

Estão com sobrepeso 35% dos técnicos-administrativos entrevistados, e 26% são obesos. Pouco mais de 60% dos técnicos-administrativos estariam na faixa de sobrepeso ou de obesidade. 

“Pode haver erro e pode de algum modo estar refletindo o efeito da pandemia devido ao comportamento sedentário, mas chama a atenção, porque são frequências muito elevadas”, chamou a atenção Leal Costa.

A partir dos 60 anos, 43% responderam estar na faixa do sobrepeso. Em relação aos técnicos-administrativos, a frequência sobe para 49%. Ambas as frequências são altamente elevadas.

“Por si só, independente da covid, esses resultados chamam a atenção, enquanto comunidade universitária, para pensar estratégias e meios de lidar com essas condições físicas crônicas, como sobrepeso, obesidade, hipertensão e diabetes”, avaliou Leal Costa.

Estado de saúde em geral

A última pergunta, comum em estudos epidemiológicos, se refere à saúde como um todo da pessoa. 

“Muito simples, subjetiva, porém de grande valor. É o que chamamos autoavaliação do estado geral de saúde. O que nos preocupa nas respostas são as avaliações tidas como negativas ou desfavoráveis. Em especial às categorias ruim e muito ruim”, disse o epidemiologista.

No conjunto da universidade, 2,1% (238 pessoas) responderam estar com a saúde ruim. Muito ruim, 21 pessoas (0,2%). “São referências relativamente pequenas, mas essas respostas são indicativas de um risco grande de adoecimento e até risco de morte. Isso por diversas condições e motivos de uma saúde física e mental deteriorada”, explicou.

O estado de saúde regular tende mais para uma avaliação negativa do que positiva. E as frequências são mais elevadas. Dos 19,5% do conjunto dos respondentes, 2.196 referiram um estado de saúde regular. E no caso dos técnicos-administrativos, 18,3% (ou 230) referiram o estado de saúde regular.

“Se juntarmos regular, ruim e muito ruim, temos para o conjunto da universidade de 21,5% e 22% referindo um estado de saúde de alguma maneira comprometido. Entre os técnicos-administrativos essa proporção fica em torno de 20%. Isso significa dizer que entre cada cinco, um está com a saúde comprometida.”

Segundo Leal Costa, nesse momento, ao avançar nas análises dos resultados, foi verificado que a resposta dos que disseram terem sido acometidos por covid coincide com suas respostas de avaliações negativas do seu estado de saúde. 

“Essas respostas sinalizam um acompanhamento de alguma forma para que a gente destine uma atenção para o conjunto da nossa comunidade no que diz respeito ao nosso estado de saúde. Especialmente nesse momento de pandemia. E que seja um esforço conjunto de toda a universidade e dos grupos que a compõem”, concluiu.

 

Antônio José Leal Costa coordenou a sessão – Fotos: George Magaraia/Abrasco

 

 

 

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