Mais capítulos da série produzida pela Comissão da Memória e Verdade da UFRJ

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Em tempos de negacionismo e governo Bolsonaro, a série Incontáveis, produzida pela Comissão da Memória e Verdade da UFRJ, ganha importante dimensão. Dividida em seis partes, tematiza a violência da ditadura contra as mulheres, a população LGBTQIA+, a população negra e moradora de favelas, os povos indígenas, os estudantes e educadores e os trabalhadores do campo e da cidade. Cada episódio de até 15 minutos é narrado por uma pessoa que viveu os impactos da ditadura, representando os incontáveis sujeitos coletivos atingidos, mas nem sempre lembrados nas narrativas tradicionais.

“Oficialmente a Comissão Nacional da Verdade levantou 434 vítimas da ditadura, mas outras violações foram sofridas por sobreviventes no período, desde as prisões, as torturas, as demissões no trabalho, a censura, os projetos interrompidos. E setores específicos da população que sofreram violências coletivas que são difíceis individualizar”, declara o diretor da série, José Sergio Leite Lopes.

“Esse trabalho se torna mais premente nesse período em que o governo atual ganhou as eleições fazendo apologia da ditadura, da tortura, da disseminação de armas e da prática miliciana. Os seis episódios são todos precedidos de uma introdução comum que apresenta essa situação atual de negacionismo e faz a ponte para o que é tratado nos vídeos”, ressalta José Sergio.

“A expectativa da equipe é sair do lugar comum sobre a ditadura e fazer o enfrentamento no terreno onde as fakes news e o negacionismo têm ganhado mais espaço que são as redes sociais numa linguagem simples. Você pode mandar para o seu amigo que não entende nada de história, mas fica repetindo qualquer coisa que ouviu por aí. É oferecer um instrumento para que esse debate possa ganhar a esfera pública”, explica uma das roteiristas, Luciana Lombardo, historiadora e assessora da Comissão de Memória e Verdade da UFRJ.

Essa disputa, para Luciana, deve ultrapassar os muros da universidade.

“Os relatórios das comissões da verdade trouxeram novidades e importantes revisões do que tradicionalmente se falava da ditadura, mas foram pouco divulgados e não chegaram ao senso comum. Não saiu da universidade e estamos tentando fazer com que essas narrativas entrem na batalha das ideias”.

Segundo ela, o objetivo é falar dos muitos dos sujeitos coletivos atingidos pela ditadura, daqueles que não foram contabilizados nos relatórios das comissões da verdade e nem nas comissões de anistia e que são anônimos. “Embora tenham nome e sobrenome eles não são lembrados na história como personagens significativos. Então nosso objetivo era recuperar essas histórias não contadas dos sujeitos não contabilizados e mostrar que eles contam. O nome Incontáveis vem exatamente dos inumeráveis da violência da ditadura”, declara a historiadora.

Luciana cita como exemplo um dos episódios que marcou o regime que é a foto de Evandro Teixeira com os policiais agredindo um estudante. 

“Esse é um dos que não entraram na contagem das 434 vítimas oficialmente reconhecidas. Ninguém sabe o nome do estudante de medicina que tombou nessa passeata. Então fomos atrás de documentos. Essa é uma foto clichê que todos conhecem, mas poucos sabem que esse estudante morre ali com a cabeça na calçada e essa morte é dada como acidente. Quando está dada claramente a covardia policial. Essa queda do estudante é um dos motivos deles terem entrado no documentário como sujeitos atingidos pela ditadura, poque não temos os registros de todos que tiveram suas vidas destruídas pela ditadura na universidade”, explica.

Luciana revela também que a foto se tornou um caso emblemático de fake News. “Como as pessoas sabem pouco ou nada sobre a ditadura, muitos acreditam na montagem. A foto foi divulgada nos círculos bolsonaristas com o rosto do Lula como se fosse o estudante. Como muitos não conhecem a história, vão acreditar que foi o Lula”.

A série ficará disponível no canal YouTube do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ. São dois episódios por mês, sempre no horário das 14h. Em novembro, dia 9, a estreia foi o tema “Educação na ditadura” tendo como narradora a historiadora Dulce Pandolfi, torturada no DOI-Codi da Tijuca. No dia 16, o tema foi “Trabalhadores na ditadura, com narração de Jardel Leal, ex operário naval e estudante no Congresso de Ibiúna em 1968.

A direção é de José Sergio Leite Lopes, a edição de Rubens Takamine e o roteiro de cada episódio foi feito pelos pesquisadores Felipe Magaldi, Lucas Pedretti, Luciana Lombardo e Virna Plastino.

Em dezembro teremos:

Dia 7 – População negra e moradores de favelas na ditadura | Narração: Dom Filó

Dia 14 – População LGBTQIA+ na ditadura | Narração: Hércules Quintanilha

Em janeiro:

Dia 11 – Mulheres na ditadura | Narração: Lúcia Murat

Dia 25 – Povos indígenas na ditadura | Narração: Douglas Krenak

 

 

 

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