Comunidade protesta em defesa do CAP

Compartilhar:

Depois da queda do muro do CAP, neste final de semana, qual vai ser o próximo prédio afetado?

Com cartazes em punho e muita indignação, estudantes, pais, técnico-administrativos e docentes do Colégio de Aplicação da UFRJ (CAP) protestaram – com apoio do carro de soim do Sintufrj –, na manhã desta segunda-feira, 23, por solução para os problemas estruturais na unidade, por orçamento para a instituição e atenção para a segurança de estudantes e trabalhadores.

O protesto foi convocado pelo DCE Mário Prata e contou com apoio do Sintufrj.

Técnicos-administrativos e docentes se reunirão amanhã, dia 24, às 9h30 para debater a situação precária de trabalho na unidade e comunidade promete ocupar próximo Consuni, dia 26, em mais um ato de protesto.

Não faltaram alertas: desde janeiro foram enviados relatórios à Reitoria apontando a gravidade da situação e risco para as pessoas. A Defesa Civil interditou o local apenas com faixas. Em março a comunidade do CAP foi ao Consuni apresentar os problemas da unidade. A situação não se alterou. Por isso, muitos responsabilizam não só a crise orçamentária mas a falta de iniciativa da Universidade.

Fotos: Renan Silva

Estudantes pintam cartazes para o protesto

O protesto foi diante do enorme vão deixado pela queda de trecho do muro na rua Batista da Costa (paralela a J.J. Seabra, na Lagoa, endereço do colégio), no dia 21 à noite. O Corpo de Bombeiros foi acionado. A Defesa Civil também esteve lá no dia anterior. Destroços atingiram um veículo. Não houve feridos.

As aulas foram suspensas no colégio de 77 anos que tem 780 estudantes e é campo de formação de professores. Estudantes e pais também relataram preocupação com o estado da estrutura interna, com infiltrações e rachaduras em salas de aula.

A Reitoria informou em nota que contrataria com urgência empresa especializada para realizar os reparos e que a prioridade era garantir o restabelecimento da segurança da área.


“Não é só falta de verbas, mas de prioridade”, indignavam-se dirigentes da Associação de Pais dos Alunos do CAP (APA-CAP).

Tragédia anunciada

Bianca Bandeira é mãe de uma aluna da 5a série e não aposta que a causa do acidente tenha sido só falta de recursos, mas também a falta de gestão, “porque essa é uma tragédia anunciada. Em janeiro, a Defesa Civil teve aqui e fez uma avaliação interditando o muro, e de lá para cá essas faixas (de interdição) foram sendo colocadas. Mesmo assim, pessoas estacionavam o carro aqui, crianças e mães passavam por aqui”.

Segundo conta, “as crianças principalmente estão consternadas porque já não tinham esses espaços de quadra para utilizar e agora a gente está com uma escola sem muro, uma escola sem aulas”, lamentou.

Débora Ramos cobrou a falta de iniciativa das gestões e deixou que sua filha Yasmin Rosa, no 4º ano, expressasse a angústia dos estudantes diante da situação. Ela lamentou a escola sem aulas depois de um feriado prolongado e alertou que o MEC exige 200 dias de aula. Os pais cobravam a instalação de tapumes urgente, para a retomada das aulas.

“Quantas paredes precisam cair para tomarem medidas?”, perguntou Sophia Mayume, presidente do Grêmio. Maria Luíza Selonk, da direção executiva do DCE, lembrou outros momentos críticos, como a queda de um trecho da marquise da Escola de Educação Física, questionando: “Qual vai ser o próximo prédio?”. Ela ponderou que o fechamento da UFRJ não será com um cadeado na porta, mas a suspensão de aulas pouco a pouco por falta de condições.

Débora com a filha, estudante do quarto ano. Ao lado, Shophia, representante do DCE. 

O coordenador de Educação, Cultura e Formação Sindical Edmilson Pereira lembrou que não é necessária apenas a reconstrução do muro, mas um prédio novo. “Cada vez mais esse colégio fica abandonado por falta de verba da educação pública, que cada vez mais está sendo cortada por um Congresso, que não dá importância à educação brasileira e à universidade. O reitor vem prometendo já há muitos meses a resolver a questão do muro, mas a burocracia impede. Então pedimos urgência, porque as crianças precisam voltar à escola e nós, técnicos-administrativos e professores precisamos trabalhar”.

Edmilson e Lenilva: Sintufrj presente

A Coordenadora, Maria Lenilva contou que é mãe de uma ex-aluna da Escola de Educação Infantil, portanto, além do apoio à luta da comunidade, tinha uma questão afetiva com a escola transferida de forma totalmente abrupta e sem condições de funcionar no CAP, há três anos sem espaço, com crianças pequenininhas, de 3 a 6 anos, confinadas em duas salas sem espaço para suas atividades.

Os dois convocaram técnicos-administrativos, pais, alunos, professores a estarmos na quinta-feira no Consuni, “para cobrarmos mais uma vez do reitor um olhar mais diferenciado e de forma efetiva para o CAP”.

A professora Renata Flores lembrou que a queda do muro aconteceu três meses depois da comunidade ter ocupado o Consuni, denunciando a situação: “A gente precisa ser voz uníssona”, disse apontando a falta de condições de se realizar educação sem orçamento adequado. Segundo ela, é preciso responsabilizar também a reitoria.

Renata no ato: CAP pede socorro

Auditório cheio e muitas perguntas

Depois do protesto, a direção convocou professores e técnicos para informar o resultado de reunião com a Reitoria (com o reitor Roberto Medronho e representantes das pró-reitorias) realizada mais cedo. No auditório lotado, a diretora-geral Cassandra Pontes e a vice-diretora Marina Campos fizeram um relato. O processo da auditoria emergencial foi agilizado, a empresa vencedora foi acionada e ficou de ir ao colégio ainda nesta segunda-feira para avaliar o espaço e instalar tapumes na terça-feira e na quarta-feira. As aulas seguiriam suspensas até quarta, prazo que poderia ser prorrogado em caso de necessidade.

No dia seguinte, terça, 24, haverá uma reunião de docentes e técnicos-administrativos da unidade pela manhã e, à tarde, sessão do Conselho Diretor onde se definiriam os próximos encaminhamentos.

Cassandra contou que logo no início do ano letivo o Escritório Técnico Universitário (ETU) realizou uma vistoria e a Defesa Civil indicou o isolamento da área da quadra por risco de queda do muro. Mas isso foi feito com fitas zebradas embora a escola tenha reivindicado um isolamento mais efetivo.

O Escritório de Planejamento do ETU, na Praia Vermelha vinha acompanhando de perto o comportamento do muro até que, no sábado, verificou-se uma movimentação significativa e o muro tombou. “Graças a Deus, ninguém foi ferido. Mas o risco existia. Foi atingido um automóvel parado ali”, lamentou a diretora.

A segurança do local foi intensificada com apoio da Diseg da UFRJ e do 23º Batalhão.

Alertas de Risco

Igor Ribeiro, engenheiro do Escritório de Planejamento do ETU, na Praia Vermelha, vem acompanhando a situação da escola. No dia 17 de janeiro ele fez um relatório apontando que o muro apresentava sinais de afundamento, orientando o isolamento de trecho significativo do quadro e pedindo a Defesa Civil o isolamento externo. Como não foi usado gradil ou tapume, a preocupação aumento. Ele então acrescentou no processo para a Reitoria e para a Coordenação de Relações Institucionais (Corin), solicitação de ofício da UFRJ atestando preocupação até com risco de morte de alunos, pais e trabalhadores diante da possibilidade de o muro tombar para fora. Mas a situação não se alterou.

A diretora leu um trecho de documento que produziu relatando vários problemas da escola e questionando: “Até quando?”: “Até aqui, a escola sempre resistiu, mobilizando emoções, sentimentos, relações e conhecimentos. A escola sempre resistiu, contribuindo para o desenvolvimento da expressividade, da criticidade e do pensamento ético-político voltado à coletividade. A escola resiste em um esforço constante, de custo extremamente alto. Adoecimento de profissionais de educação (…) A escola desmorona. Ainda assim, nos levantaremos. Em ruína, responde às ameaças de degradação da educação pública, a uma precariedade que não é acidental. Mais uma vez, nos levantaremos unidos pela educação que defendemos, resistiremos”, leu Cassandra.

É preciso mobilização

Edmilson colocou que é preciso que se pare de maquiar a situação: “Sou um técnico-administrativo, pedagogo, um professor, não tenho essa visão técnica mas, do meu ponto de vista, tem que derrubar tudo. Nunca saiu do papel a promessa de tirar o colégio de educação desse lugar. Se não tem verba, infelizmente, temos que ir para Brasília. O que resolve é fazer movimento com professores, técnicos, alunos. Parar de ficar sentado na mesa burocrática, porque isso não resolve”, concluiu o coordenador do Sintufrj.
 

A quadra aberta com a queda do muro

Em protesto no Consuni, cartaz alerta: o muro vai cair

“O CAp também é UFRJ”

 

COMENTÁRIOS