Golpe na Unirio

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Manobra em universidade federal não respeita resultado das urnas e indica professor, que sequer disputou a consulta à comunidade universitária, para reitor

Decisão do Colégio Eleitoral da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), reunido no dia 11, surpreendeu estudantes, professores e técnicos-administrativos por desrespeitar a vontade explicitada nas urnas da pesquisa à comunidade universitária para escolha de reitor e vice-reitor da instituição (gestão de 2019 a 2023).

Servidores e estudantes que lotaram o auditório reagiram aos gritos de “É Golpe” à decisão do Colégio Eleitoral de elaborar a lista tríplice a ser enviada ao MEC, não respeitando o resultado das urnas. O nome de Leonardo Villela de Castro, cuja chapa obteve 72% da preferência da comunidade, e Claudia Aiub,que obteve 28%, entraram na lista em segundo e terceiro lugares. Encabeça a lista o atual vice-reitor da Unirio, Ricardo Silva Cardoso, que nem sequer disputou a preferência da comunidade.

Retrocesso  

Em fevereiro, uma reunião dos conselhos superiores decidiu por ampla maioria pela realização da consulta paritária, como ocorre desde 2004 na Unirio. Duas chapas participaram da consulta: a vencedora foi a de Leonardo Villela de Castro e Maria do Carmo Ferreira, que conquistou 72% dos votos. O resultado não balizou o Colégio Eleitoral, que, além do vice-reitor, considerou também a candidatura de uma outra pessoa de fora da consulta, o professor de medicina e militar da Marinha, Helton Setta.

O resultado da votação no Colégio Eleitoral – que é formado por 70% de docentes, 15% de estudantes e 15% de técnicos-administrativos – foi a seguinte: Ricardo Silva Cardoso teve 65 votos, Leonardo Castro, 52, Claudia Aiub, 20, e Helton Setta, 10.

Servidores e estudantes disseram que essa é a primeira vez desde a redemocratização do país que um candidato é escolhido pelo Colégio Eleitoral da universidade sem passar pela consulta à comunidade. Ricardo Silva Cardoso foi recebido com uma grande vaia e uma faixa onde se lia “Abaixo a intervenção bolsonarista na universidade e que a comunidade seja respeitada”.

“Foi um ataque à democracia”

“A democracia foi atingida. Todo mundo foi votar, e isso não tem valor nenhum? Não está certo”, disse o diretor financeiro da Associação de Servidores da Unirio, Marcio Jaimoviceh. “O Colégio Eleitoral vai mandar  a lista tríplice e ninguém sabe o que vai acontecer agora”, acrescentou.

A coordenadora-geral do Diretório Central dos Estudantes da Unirio, Ana Laura Asty, disse: “Estudantes, docentes e técnicos-administrativos, todos fomos fazer pressão no conselho, com palavras de ordem, mas mesmo assim a consulta não foi respeitada. Vários conselheiros votaram a favor de Ricardo. Isso é bem grave”.

No mesmo dia os estudantes realizaram uma plenária, que aprovou que saíssem em passeata pela Avenida Pasteur até a Reitoria, na Urca, para pressionar para que a comunidade universitária fosse respeitada. No dia 17 de abril, os centros e os diretórios acadêmicos se reunirão para organizar os próximos passos da mobilização contra o golpe.

Ex-reitora condena

Malvina Tuttman, ex-reitora da Unirio em dois mandatos – “Graças a Deus de forma democrática”, destaca ela –, e atual presidente do Conselho Estadual de Educação do Rio de Janeiro, analisou a situação.

“Isso aconteceu pela primeira vez. Entrei na universidade em 1980, época da lista sêxtupla, e sempre houve uma consulta pública e democrática à comunidade. Inclusive, no nosso estatuto aprovado ano passado, no artigo 11, inciso 3, consta com clareza que a indicação dos nomes da lista tríplice será feita pelo Colégio Eleitoral precedida pela consulta à comunidade”, disse Tuttman.

A ex-reitora confirma que houve discussão sobre a sucessão na universidade feita pelos conselhos superiores, e que foi aprovada a realização de consulta paritária, como sempre ocorreu, e sob a responsabilidade das entidades representativas dos segmentos. E, paralelamente, a Reitoria abriu inscrições somente para o Colégio Eleitoral.

Com um auditório lotado e em meio a protestos, sem permitir qualquer questionamento, o reitor Luiz Pedro San Gil Jutuca pôs os nomes em votação, colocando os que se submeteram à consulta em segundo e terceiro.

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