Dados são mercadorias preciosas

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“Ensino e trabalho remoto no capitalismo de plataformas” foi a mesa que reuniu, no segundo dia do Fórum Técnico-Administrativo em Educação da UFRJ, na quarta-feira, 2, o analista da Superintendência da Tecnologia da Informação (TIC), da UFRJ, Rafael Raposo, e os professores Marilane Teixeira, economista da Unicamp, Marcos Dantas, da Escola de Comunicação da UFRJ, e Sergio Amadeu, da UFABC.

O trabalho e o ensino remoto foram impostos em consequência da pandemia do novo coranavírus, sem que tenha sido feito um censo sociotécnico dos trabalhadores e estudantes, é a opinião de Sergio Amadeu. Segundo ele, atualmente, 52% dos brasileiros acessam a internet usando celulares limitados. A qualidade da conexão é precária, assim como a moradia da maioria das pessoas não é adequada para ser transformada em local de trabalho ou sala de aula, atrapalhando o cotidiano dos familiares. Sem falar nos custos com energia elétrica, entre outros insumos que recaem sobre o trabalhador ou estudante.

“O mais importante mercado da atualidade é o de compra e venda de dados pessoais. Existem empresas cujas especialidades é a coleta e o tratamento de dados a respeito dos hábitos dos consumidores”, disse o professor. De acordo com ele, o trabalho remoto significa que estão querendo dominar todos os espaços para a coleta de dados. “Estamos entregando dados para as plataformas existentes, e dados também são levados para fora, como os do Sisu, que foram entregues para uma empresa norte-americana. O contrário jamais ocorreria, porque o Congresso americano não permitiria”, afirmou.

Ele defende que as universidades criem as suas próprias plataformas, e que os sindicatos devem entrar nessa luta.

“Os serviços são oferecidos por meio de aplicativos, e o empregador fica como intermediário. Precisamos saber que regulação pública vamos reivindicar para esses trabalhadores uberizados. Com a ampliação dessa forma de gestão de trabalho aliada a novas tecnologias, temos que pensar, por exemplo, sobre o tempo de produção, que começa a ser contabilizado em minutos e passamos a fazer muita coisa. Nos é exigido mais agilidade, mais desempenho. Deixamos de interagir com os colegas, chefias, perdemos a hora do cafezinho”, lista a economista Marilane Teixeira. “A educação também não é só transferência de conhecimento, é interatividade, construção coletiva. Por meio dessa plataforma, professores estão sendo dispensados, além disso, o cansaço mental é muito grande”, acrescenta ela.

De acordo com o técnico em TI da UFRJ, Rafael Raposo, há muito tempo os profissionais da área da universidade atuam com uma infraestrutura que não se atualizou à luz da ciência e da tecnologia. “Somos um capitalismo de dependência. As plataformas que sempre estiveram à disposição da universidade não ofereciam um trabalho gratuito, mas em troca dos nossos dados. Essas ferramentas são colocadas publicamente, e nós entregamos nossos dados. O capitalismo vai aumentando seus lucros, e nós estamos sem reajustes”, constatou.

Jornada ampliada

Os trabalhadores de TI, segundo Rafael, sempre trabalharam mais que a maioria na universidade, porque ficam à disposição para serem acessados fora do horário de expediente. E na pandemia eles têm perdido dinheiro, o não pagamento da insalubridade e do vale-transporte, e de todas as despesas com o trabalho executado de casa. “A gente precisa se organizar e dar uma resposta sobre trabalho remoto”, afirmou.

“Os dados são o petróleo do século XXI, porque com eles se molda o que aquela sociedade está pensando. Nós trabalhamos de graça para as plataformas produzindo dados”, disse Marcos Dantas. “A internet surge sem lei e se expande sem qualquer tipo de regulamentação. E hoje estamos conectados o tempo todo. Assim como a tevê, a internet vende produtos e audiência. Precisamos ter regulação pública nacional para legitimar o negócio”, defendeu o professor.

Ele também é a favor de que a UFRJ monte sua própria plataforma para atuar com trabalho e ensino remotos. “Sou chato, porque a universidade tem tradição na construção dessas coisas”, concluiu.

VEJA O VÍDEO.

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