“A pobreza no Brasil tem cor: ela é hegemonicamente negra”

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Esta frase marcou a cerimônia de lançamento da Liga Acadêmica de Enfermagem em Saúde da População Negra (Laespne) da UFRJ, e seu autor foi o professor Richarlls Martins, do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas em Direitos Humanos (NEPP-DH/UFRJ), na sexta-feira, 27 de novembro, com transmissão pelo canal da Liga no YouTube.

“Dentro de uma sociedade racista, tornar-se negro é um ato de coragem. Amar a cor da sua pele, a textura do seu cabelo, o tamanho da sua boca, o nariz é uma cura, e celebra a ancestralidade. Nessa perspectiva, a Laespne/UFRJ não é apenas uma Liga Acadêmica, ela é fruto de um aquilombamento com atividades afrorreferenciadas que visam propagar de forma integral a saúde da população negra. E ser uma mulher negra e favelada, e a primeira da família a cursar uma universidade, abala as estruturas da sociedade”, pontuou a vice-presidente da Liga, Renata Laurindo.

A importância da criação da Liga foi destacada também pela sua presidenta, Giselle Natalina, e pelas professoras orientadoras Cecília Izidoro e Maria Soledade Simeão.

Conhecer a realidade

 para mudá-la

O evento debateu três temáticas importantes para a população afro- brasileira: “Racismo como Determinante Social em Saúde”, com a assistente social do Inca, Eliane Assis; “A Política de Saúde da População Negra”, com a enfermeira de Estratégias de Saúde da Família da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, Débora Carvalho, e “A Saúde da População Negra como Direito Humano”, com o professor Richarlls Martins.

“Uma fábula que nos foi contada é a que somos todos iguais, calcada na ideia de democracia racial que não existe. O racismo é parte da estrutura social. Ele existe e está aí. O racismo é o componente ideológico do capitalismo, que precisa dele para sobreviver”, afirmou Eliane Assis. “Não se pode pensar em desenvolver os cuidados em saúde isento desta realidade racista existente na nossa sociedade”, acrescentou.

A enfermeira Débora Carvalho fez um relato sobre o que existe em termos de políticas de saúde para a população negra no país como consequência das lutas dos movimentos negros, mas que na prática precisam do envolvimento dos profissionais de saúde.

“Ao traçar o perfil da população negra, eu consigo estabelecer um plano de cuidados de qualidade que vai se adequar às necessidades desses cidadãos. É assim que tem que se estruturar o cuidado do enfermeiro. Os negros estão em todo o lugar, e eu preciso saber quem são eles. Quando a gente entende e conhece essa população, começamos a entender a importância da implantação dessa política e a entender nosso compromisso enquanto enfermeiro para sua implantação. É o nosso compromisso e a nossa missão implantar essa política e fazer a diferença na vida do nosso povo”, disse Débora.

“De acordo com a Síntese do IBGE, podemos reafirmar quem é a população pobre no Brasil. A pobreza no Brasil tem cor, e ela é hegemonicamente negra”, afirmou o professor Richarlls Martins, que apresentou números: “Do total de pessoas pobres no Brasil, 73% são pessoas negras, sendo 38% mulheres pretas e pardas e 35% homens pretos e pardos. Na extrema pobreza, é ainda maior a população negra. Os últimos dados oficiais do governo brasileiro indicam: 77% extremamente pobres no Brasil são negros; destes, 40% são mulheres negras e 37% homens negros.”

Richarlls sustenta que a pobreza no Brasil é um componente racial, o que demanda desafios: “Isso nos coloca um enorme desafio: que é o de pensar efetivamente quais são as estratégias enquanto sujeitos que estamos nesse lugar de produção do saber, de disputa acadêmica para o enfrentamento do racismo e a promoção da igualdade racial num contexto altamente racializado como o brasileiro”.

Para ele, iniciativas como a Liga têm um “papel central de possibilitar um movimento disruptivo de disputa”. E finaliza sua apresentação citando desafios colocados para a Liga Acadêmica de Enfermagem em Saúde da População Negra/UFRJ, como despertar na categoria de enfermeiros da universidade a discussão racial que os leve a realizar uma missão social externa, que é auxiliar na defesa dos postulados no campo da saúde da população negra e na defesa e implantação de uma Política Nacional de Saúde da População Negra.

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