O Grupo de Trabalho Antirracista do Sintufrj promoveu mais um debate qualificado nesta quarta-feira, 18 de março, transformando sua reunião mensal em atividade de greve. O tema em discussão foi “Letramento Racial” e teve como convidadas Luciene Lacerda, do Núcleo de Estudos de Afro-Brasileiros e Indígenas (Neabi/UFRJ) e Sandra Batista Martins, diretora de Relações Étnico Raciais da Superintendência Geral de Ações Afirmativas, Diversidade e Acessibilidade (SGAADA).
Cada vez mais o GT investe no trabalho de formação descortinando a pauta antirracista. O letramento racial é um conjunto de práticas pedagógicas e reflexivas que capacita indivíduos a reconhecer, criticar e combater o racismo estrutural e atitudes racistas no cotidiano. Visa conscientizar sobre a hierarquização racial, desconstruir preconceitos enraizados e promover a equidade, sendo essencial para transformar relações sociais e institucionais.
As palestrantes abordaram aspectos do letramento racial tais como conscientização estrutural e educação para o combate de atitudes racistas, fizeram uma reflexão sobre a branquitude abordando ações práticas para a mudança de comportamento focando na construção de um ambiente de trabalho e social mais inclusivo. O processo de letramento racial busca um entendimento profundo sobre raça, racialização, preconceito e discriminação, tornando-se uma ferramenta política fundamental para a igualdade.
Sandra Batista abordou a questão do racismo, começando com a ideia de “clarear” a situação e transformar o negativo em positivo. Ela falou sobre o uso de expressões racistas e como elas estão enraizadas na cultura, citando muitos exemplos. Ele reconhece a dificuldade de mudar essas atitudes, mas enfatizou a necessidade de combater o racismo e as palavras que perpetuam a discriminação.
“Uma das coisas que a gente tem de pensar, não é só como a gente ouve as palavras. Palavras racistas. Mais sim nas alternativas que a gente pode dar a essas palavras. Aí é onde a gente começa a entender e aprender a agir diante de uma fala racista. Você vai questionar aquela pessoa, vai corrigir ou vai simplesmente se calar? Porque às vezes não vale a pena na nossa cabeça e a pessoa vai continuar reproduzindo. E qual é o papel que nos cabe como pertencentes a UFRJ? Então eu acho que além de sabermos as expressões, eu acho importante sabermos como agir diante de uma situação de racismo, de uma palavra racista, trocar essas palavras, utilizar sinônimos”, refletiu.
Ao final de sua apresentação Sandra sugeriu para o GT a criação de um manual de bolso e ou cartilha para distribuir dentro da UFRJ para municiar as pessoas para a troca de palavras e expressões racistas.
Luciene Lacerda chamou a atenção para a importância de uma política que considere a diversidade e combata o racismo, especialmente em áreas como educação e representação política. Ela compartilhou sua experiência com a falta de representação de crianças negras em uma creche, destacando como isso transmite a mensagem de que certos grupos são mais importantes. Ela também criticou a forma como partidos políticos utilizam a imagem de mulheres negras sem que elas ocupem posições de poder real, questionando a autenticidade de políticas que dizem ser “para todos”.
Luciene enfatizou a necessidade de analisar criticamente as políticas e ações, buscando entender quem são os verdadeiros beneficiários e se elas refletem uma verdadeira inclusão.
“Você deve pensar em qualquer significado do seu trabalho olhando as relações raciais. Se olharem as chamadas de partidos políticos, como essa questão racial começa a chamar atenção. Como o fato, principalmente, com a repercussão que foi a morte da Mariele Franco, uma parlamentar, mulher, negra. Começou-se a perceber que se as mulheres negras são o maior número, são as que poderiam, por exemplo, mudar as leis. Todos os partidos têm suas apresentadoras como mulheres negras, todos, mas ela apresenta só o programa. E aí começa a aparecer quem dirige o partido ou então as figuras de parlamentares que são, principalmente, homens brancos. Então, você pode questionar a essas pessoas. Qual é a política que se pensa sobre isso? O que vai se fazer para essa questão, para essa política? Que política você está pretendendo fazer? Se for a farsa de mostrar uma pessoa negra por trás de uma política absolutamente racista, machista, homofóbica, lesmofóbica, ou que tipo de política se pretendeu? Quando alguém começa a dizer, isso é para todos, eu já começo a desconfiar. Todos, por que e para quem?”, inquiriu Luciene, uma das idealizadoras da campanha 21 Dias de Ativismo Contra o Racismo que está em sua 10ª edição.
Livros
Ao final da atividade, o tradicional sorteio de livros do GT brindou Solanne Alves e Hilem Moisés com os livros de Conceição Evaristo, “Insubmissas Lágrimas de Mulheres” e “Literatura Negra”.

Lucien Lacerda fez sua apresentação on line





