Com o salão ocupado por dezenas de estudantes com cartazes e faixas reivindicando a aprovação do Protocolo de Segurança da UFRJ, depois de intensa discussão e da formalização de um parecer pela Comissão de Legislação e Normas que incorporou propostas dos diversos pareceres apresentados, o Conselho Universitário (Consuni) aprovou, na sessão desta quinta-feira, 14, por unanimidade, resolução sobre a Política de Gestão Integrada do Risco de Violência Urbana da UFRJ. um plano contem diretrizes para tomada de decisão, no âmbito da universidade, frente à situações violência urbana, operações polcais, confrontos armados e outras circunstâncias que afetem a rotina acadêmica e administrativa da universidade.
“O Reitoria, fica ligada! Estudante não é à prova de bala!”, com essa e outras palavras de ordem, alunos de diversos cursos lotaram o salão logo no início da sessão, com suas lideranças se revezando em anunciar os prejuízos que a postergação da decisão a respeito do tema tem causado à comunidade universitária. Muitos dos quais são “revitimizados”, como disseram alguns conselheiros, como a técnica administrativa Marta Baptista, explicando que muitos, além de se submeterem à violência e ao perigo das operações policiais, sofrem as consequências (acadêmicas e profissionais) de não conseguirem chegar à universidade.
“Segurança é inegociável” e “Quantos mais têm que morrer?”, questionavam os cartazes. Em jogral, os estudantes anunciavam “estamos aqui hoje para aprovar o protocolo no Conselho pelos estudantes que hoje sofrem com operações policiais”.
Paralisação estudantil dia 19
A conselheira estudantil Isadora Camargo anunciou que dia 19 de maio, próxima terça-feira, os cursos da UFRJ vão parar. Contou que mais de 80 cursos já aprovaram o indicativo e outros ainda realizavam suas assembleias. O foco estava em três pontos principais, explicou: além da definição do protocolo de segurança (em pauta na sessão), a substituição da empresa responsável pela baixa qualidade do serviço de alimentação nos Bandejões (Nutryenerge) e o corte de 20% das bolsas de extensão. “Nós vamos paralisar”, reiterou.
Outro representante discente, Henderson Ramon explicou que em todos os dias que há operação policial os estudantes se tentam saber como proceder e que o protocolo foi elaborado justamente por isso, citando como exemplo mais um conflito recente na comunidade da Maré: no dia 5, em que ele próprio não conseguiu sair de casa. Apesar disso, a universidade se posicionou apenas no meio da tarde, informando que tudo estava normal. “Não estava tudo bem! Não dá para distorcer a realidade que várias pessoas como eu estão vivendo no seu dia a dia”, apontou. Segundo ele, estava entre as reivindicações eixos da paralisação do dia 19 está também a acessibilidade, inclusive a falta de interprete de LIBRAS e de elevadores para cadeirantes, além da situação precária da moradia estudantil.
Segundo o DCE, mesmo com a aprovação do protocolo, a paralisação do dia 19 se mantém. Será um dia inteiro de atividades, locais nos cursos pela manhã e à tarde um protesto unificado, no Fundão.
Fotos: Renan Silva


GT trabalha no plano desde 2023
Situações de violência têm se repetido com frequência na cidade. Volta e meia estudantes e servidores, muitos moradores em comunidades, se veem em meio a operações da polícia e impossibilitados de saírem de casa. Por isso, reivindicavam um protocolo de segurança para ser acionado antes da maioria iniciar seu deslocamento para a UFRJ, para não serem penalizados com faltas ao trabalho e/ou pela ausência em provas.
O plano é fruto de mais de dois anos de trabalho de um GT institucional e entrou em pauta inúmeras vezes no colegiado, inclusive com duas apresentações pelo coordenador do grupo de trabalho, mas sua votação foi adiada tantas vezes que estudantes, técnicos administrativos e outros membros do colegiado chegaram a organizar um abaixo-assinado diante da urgência do tema.
Com a aprovação, o salão explodiu em comemoração e a sessão foi considerada histórica. Veja a seguir:
E agora, o que acontece?
Após a sessão, o reitor Roberto Medronho garantiu que o plano será posto em prática o mais brevemente possível e o representante do DCE, Henderson Ramon, informou que o movimento vai cobrar a implantação.
“Agora é seguir o que nós aprovamos aqui. Estabelecer um gabinete de crise, o conselho consultivo. Aplicar aquelas orientações que estão no plano do GT”, comentou o reitor. “Eu quero fazer o mais rápido possível, porque infelizmente as operações não param. E hoje eu foi um momento de muito orgulho para toda a nossa universidade, porque tivemos a discussão profunda com as divergências colocadas de forma bastante clara. E a partir do debate, foi-se caminhando para uma proposta de consenso. Essa é a universidade que a gente quer: uma universidade viva, que debate, que se manifesta e que está, ao fim e ao cabo, com todos querendo remar para o mesmo lado, em prol da nossa UFRJ”, disse ele comemorando a sessão que classificou de histórica.
“Agora o protocolo tem que ser executado. A briga para o gabinete de crise sair, como a gente aprovou aqui hoje, e para que ele venha a ser cumprido. Só aprovar e não ser executado não adianta. A gente vai cobrar. Sempre que a gente tem uma operação, a gente aciona a Reitoria e a resposta demora. A nossa esperança é que agora, com esse protocolo aprovado, que a Reitoria venha a ser mais eficaz em tomar as medidas e executar “, disse Henderson Ramon.
Regras para suspensão de atividades
A forma definitiva da resolução, da Comissão de Legislação e Normas com a convergência de propostas apresentadas na sessão, ainda seria finalizada e, portanto, não foi divulgada naquele momento. Mas, depois, a Reitoria publicou a seguinte nota no Instagram, destacando a construção coletiva do texto final:
“A nova resolução (Política de Gestão Integrada do Risco de Violência Urbana da UFRJ) define como a instituição deverá atuar em situações de violência que afetem o funcionamento acadêmico e administrativo da universidade. (…) Entre os principais pontos aprovados está a criação de dois núcleos de atuação: o gabinete executivo, responsável pelas deliberações e pela comunicação oficial em momentos de crise, e o gabinete consultivo, formado por representantes da comunidade universitária para avaliação e acompanhamento das medidas adotadas.
Representação dos segmentos no gabinete consultivo
O gabinete executivo será composto pela Reitoria, pró-reitorias de Graduação (PR-1), Pós-Graduação e Pesquisa (PR-2) e Pessoal (PR4), Prefeitura Universitária e Superintendência Geral de Comunicação. Já o consultivo contará também com representantes dos estudantes, servidores técnico-administrativos e docentes. “A criação dos dois gabinetes dá agilidade aos processos e às comunicações, ao mesmo tempo em que cria um espaço permanente de avaliação das ações adotadas”, destacou o professor Célio Albano da Costa Neto, relator da proposta na Comissão de Legislação e Normas (CLN) do Consuni.
A resolução estabelece regras para suspensão de atividades presenciais e para situações individuais de impossibilidade de deslocamento em razão da violência urbana. Nesses casos, não haverá abono, mas possibilidade de justificativa de faltas, mediante critérios de razoabilidade. Também ficou definido que atividades suspensas deverão ser repostas. O texto será revisado em 12 meses.
Respeito aos estudantes e trabalhadores
Os representantes técnicos administrativos Milton Madeira e Marta Baptista se manifestam no Consuni.

A conselheira técnica administrativa Marta Baptista chamou atenção para a necessidade de que o plano atinja também trabalhadores terceirizados.
O conselheiro técnico administrativo Milton Madeira defendeu que os demais conselheiros compreendessem a situação sob a ótica daqueles que são atingidos mais diretamente, como estudantes pretos, pobres e periféricos. Veja a fala do conselheiro.
Moção
Com apenas duas abstenções, o Consuni aprovou também uma moção de repudio ao governo do Estado do Rio, à política de segurança pública “pela falta de emprego da inteligência institucional”, causando sistemáticos prejuízos à rotina acadêmica da UFRJ e das demais instituições de ensino comprometendo a formação de estudantes da educação pública básica à pós-graduação.
A UFRJ, explica o texto, é diretamente afetada com uma demanda crescente de suspensão de aulas, atividades de laboratório, pesquisas de campo, estágios, defesas de tese, eventos e demais compromissos acadêmicos.

Conheça alguns elementos do plano, segundo apresentação em março, no Consuni
No Consuni do dia 26 de março (veja matéria em https://sintufrj.org.br/2026/03/mais-uma-vez-plano-de-contingencia-e-apresentado-ao-consuni/), Alexandre Barbosa de Oliveira, professor que coordenou o GT (constituído por representantes da administração central, docentes, discentes e TAEs) para desenvolvimento de diretrizes frente a operações policiais, confrontos e violência armada em áreas internas e adjacentes à UFRJ), apresentou o “Plano de Contingência da UFRJ Frente a Eventos de Violência Urbana” com as bases para a política de gestão integrada do risco. Explicou que o plano envolve pró-reitorias, o DCE e a APG, a Prefeitura Universitária e a Diseg e a Superintendência de comunicação (SGCOM) e detalha procedimentos, fluxos de ação, responsáveis e atos para a implementação da política. Define protocolos e fluxos de resposta e distribui tarefas operacionais .
Prevê uma “Gestão Integrada do Risco” abrangendo situações de tiroteios e operações policiais/militares nos entornos dos campi; confrontos armados que causem interrupção das atividades; Invasões ao espaço físico da universidade com risco à integridade física; eventos de violência que impeçam o acesso seguro aos campi e situações de risco iminente comunicadas por autoridades externas

Implementação progressiva de ações
Em curto prazo, prevê a implementação dos protocolos de comunicação e alerta utilizando infraestrutura existente (grupos de WhatsApp, e-mail, redes sociais); capacitação básica de gestores com recursos humanos já disponíveis e divulgação do plano.
Em médio prazo prevê: adequação de procedimentos administrativos sobre faltas e reposição de atividades; organização/operacionalização do Gabinete de Crise com membros já pertencentes ao Quadro institucional.
E, longo prazo (condicionado a disponibilidade de recursos): implantação de sistemas tecnológicos de vigilância, alerta e monitoramento; capacitação continuada em primeiros socorros; desenvolvimento/expansão da rede de suporte psicossocial.
Papéis
A política define uma arquitetura de governança com papéis e responsabilidades claramente distribuídos entre o gabinete de crise, responsável pelas decisões estratégicas, a SGCom, responsável pela comunicação do risco e pela Diseg, responsável pelo monitoramento, alerta e suporte operacional.
Cartões de alerta
Um sistema de cartões coloridos permite comunicar com rapidez e clareza o nível de risco, orientando ações de cada instância da comunidade universitária.

Cartão Azul — Área Segura (Acesso Livre). Atividades presenciais transcorrem normalmente. Monitoramento preventivo de rotina ativo. Nenhuma restrição adicional. Estado padrão da instituição.
Cartão Verde — Atenção: Situação de risco potencial identificada no entorno. Monitoramento intensificado. Comunidade orientada a adotar cautela adicional. Atividades mantidas com recomendações.
Cartão Amarelo — Alerta Imediato: Risco elevado confirmado. Gabinete de Crise ativado. Atividades não essenciais podem ser suspensas preventivamente. Comunicação ativa a toda a comunidade.
Cartão Vermelho — Emergência Risco grave e iminente. Suspensão imediata de todas as atividades presenciais. Protocolos de primeiros socorros ativados. Comunicação de emergência em todos os canais.




