Racismo na UFRJ é tema de aula virtual

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A realização do censo racial pela instituição para que se saiba onde estão, onde não estão e onde querem estar os negros na UFRJ foi defendida pela integrante da Câmara de Políticas Raciais e da Comissão de Heteroidentificação da universidade, Denise Góes, durante o debate on line “A questão de gênero, raça e LGBTQI nas universidades públicas”. O evento reuniu mais quatro debatedores técnicos-administrativos em educação.

“Racismo e machismo perpassam pelo movimento sindical e o combate a esses crimes é a nossa grande missão. As universidades públicas sempre foram espaços de privilegiados, mas as cotas garantiram 50% de pretos e pobres nos seus campi, e hoje quando essas instituições são ameaçadas de privatização por um governo fascista e racista é para atingir quem veio da classe média, os pobres”, afirmou Noemi Andrade, coordenadora do Sintufrj.

Captura de tela do momento de fala da dirigente Noemi de Andrade

Patrícia Santos, mestre e doutora em educação, servidora do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS), compartilhou seus altos e baixos na sua trajetória na universidade iniciada aos 22 anos de idade. “A desvalorização do técnico em relação ao professor provem da ideia de que eles vêm de uma categoria superior. Precisamos desconstruir isso”, disse.

“Fui chefe num setor importante para a unidade e era a única mulher negra que não exercia a função de faxineira. A visão social naquele contexto era que eu não devia ocupar aquele cargo. Já tinha doutorado e dez anos de experiência profissional na universidade. Tenho 1,80 metro, cabelos crespos e falo muito. Não faço o estilo de resignada e isso gerou uma série de dissabores”, contou.

Mas, a gota d´água foi quando Patrícia recebeu um email de um docente a desqualificando. Ele reivindicava que o lugar deveria ser ocupado por quem tivesse escolaridade e capacidade. “Nunca desenvolvemos mais de quatro minutos de diálogo, então, o que ele viu na minha aparência para ter essa opinião?”, indagou. Ela  trabalhava com outro jovem negro e o professor chegou a compará-los com o ex-funcionário que se aposentou e era branco.

Patrícia reagiu, mas como não foi amparada pela instituição, superou a humilhação buscando apoio nas companheiras militantes negras da universidade. A experiência a levou a concluir que o racismo não é estancado pela escolaridade ou a capacidade intelectual ou pelo cargo que o negro ou a negra ocupam. É estrutural e na UFRJ está presente até entre os professores: “no IFCS, dos 70 docentes apenas dois não negros”, informou.

Vitor Matos, 34 anos e 10 de UFRJ, também tem formação acadêmica completa e como militante do Movimento Negro Unificado (MNU) está atento ao racismo que se manifesta cotidianamente na universidade. “Se o corpo docente é todo branco, quem se interessa pela pauta racial? A solidão é muito grande. Quando eu erro, estou demolindo a imagem de todo o negro. Ninguém se lembra de erros dos brancos. Estamos sempre a nos perguntar: Será que vou exercer o cargo com eficiência? É preciso que a estrutura mude para a gente cessar com essa solidão”, afirmou.

Daniele Grazinoli, da Faculdade de Educação, foi taxativa: “As pessoas brancas têm que começar admitindo que são racistas. A gente precisa muito correr atrás do prejuízo. O primeiro racismo que a pessoa sofre é na escola e a UFRJ é racista, e só não é mais porque os movimentos negros não permitem. Tem gente de esquerda que é racista”. Ela, assim como Denise, Vitor e Noemi fazem parte da Comissão de Heteroidentificação da universidade. Patrícia já fez parte também, mas hoje não faz mais.

O debate foi mais uma aula do curso de extensão O Ser e o Fazer Técnico-Administrativo em Educação na Universidade Pública, que acontece todas às quartas-feiras, das 14h às 17h, pela plataforma AVA@UFRJ.

 

 

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