Cap se mobiliza contra racismo e desacato de trabalhadoras

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Com o brado “Racistas não passarão!” e portando cartazes com palavras de ordem como “Nossos cabelos não são piada”, “Racismo recreativo não é brincadeira” e “Respeitem nossas trabalhadoras”,  professores e funcionários do Colégio de Aplicação, cercados de estudantes, organizaram uma mobilização no início da tarde desta terça-feira, dia 10, no intervalo entre um turno e outro no pátio interno, em protesto contra casos recentes de racismo e desacato na unidade. O Sintufrj manifestou apoio aos servidores docentes e técnicos-administrativos, representado pelos coordenadores Hilem Moisés e Edmilson Pereira..

Portando uma cartolina com dizeres como “Se eu não boto limites, eu adoeço”, o professor Jorge Marçal, que divide com Monique Riscado Coordenação do Comitê Permanente da Educação para as Relações Étnico-Raciais (Erer/ CAp UFRJ), relatou a situação registrada em nota pública divulgada no dia anterior. Explicou que o caso envolve estudantes do Ensino Fundamental e Médio e até de um responsável. E atingiu um professor e servidores da Direção Adjunta de Ensino, da Enfermaria, do Registro Acadêmico e do Gabinete da Direção.

“Tratam-se de situações de racismo, de conduta misógina intimidatória e de desacato a servidores públicos em exercício da profissão, incluindo diretoras da escola, que culminaram em denúncia feita pela diretora geral do Colégio de Aplicação, Cassandra Pontes, na polícia federal”, informa a nota do Comitê.

No dia 2, registra o documento, estudantes receberam suspensão por conduta desrespeitosa e por se referirem pejorativamente ao cabelo de um professor. Depois da suspensão, tentaram intimidar o professor e servidoras. Isso, somado a outras circunstâncias, levaram a convocação dos responsáveis. Um deles, no entanto, confrontou as diretoras gerais Cassandra Pontes e Marina Campos e a diretora adjunta, Céli Palácios, com questionamento sobre sua competência pedagógica e ofensas pessoais. Diante do desacato, as professoras chamaram a polícia, registraram denúncia na Polícia Federal.

“Tal conduta vai na contramão de nossos valores institucionais, do projeto de escola democrática e antirracista que construímos e da dignidade da pessoa humana. Além disso, destacamos: racismo e desacato contra servidores em exercício são crimes tipificados pela legislação”, diz o manifesto do Erer.

O grupo reivindica que a universidade dê apoio institucional e jurídico . “É indispensável que os casos relatados sejam devidamente investigados pelas autoridades competentes e que nossa comunidade acadêmica não fique sem respostas. (…) O combate ao racismo, à misoginia e a outras práticas discriminatórias é nosso compromisso e demanda que sigamos avançando com políticas de valorização das contribuições africanas, afro-brasileiras e indígenas na educação”, concluiu o texto.

Sintufrj  em defesa da educação antirracista

Hilem Moisés coordenador de Organização e Política Sindical e Edmilson Pereira, trabalhador do CAP e coordenador de Educação, Cultura e Formação Sindical manifestaram seus apoio..

O coordenador Edmilson, que trabalha no Colégio de Aplicação há 46 anos, conta que participa do Comitê Erer, “um movimento de técnicos, professores e alunos em defesa da educação antirracista”. Hilem, que além da coordenação, integra o GT Antirracista do Sintufrj, destacou que atos de racismo e assédio contra os servidores e servidoras não serão tolerados.

Postura não poder ser banalizada

“Fiquei feliz pela mobilização que o Erer organizou no sentido de que siga reverberando na comunidade escolar que este tipo de postura não pode ser banalizada. Nem o racismo, nem o desrespeito aos trabalhadores”, disse a diretora geral do CAP, Cassandra Pontes, explicando que há atenção para a proteção aos estudantes, mas também aos servidores e à instituição Educação.

Segundo conta, tanto na postura dos estudantes quanto do responsável se observou um comportamento agressivo, com aumento do tom de voz e do desrespeito às servidoras no exercício de sua função. Mais grave, segundo conta, foi a postura de um dos responsáveis, falando em tom alto e desrespeitoso: “Sinalizei várias vezes para sua atitude de desrespeito, mas ele não recuou. Falei que poderia denunciá-lo e ele permaneceu com a mesma postura”.
Solidários, servidores que acompanhavam a situação da sala ao lado, chamaram a polícia e agora o caso será investigado pela Polícia Federal.

Em recente reunião do Conselho do Centro de Filosofia e Ciências Humanas no dia 2, Cassandra levantou um ponto: quais são os mecanismos diante de situações graves relativa a postura de estudantes. Segundo ela, a situação preocupa também colegas que lecionam na graduação.

Apoios

Racistas não passarão

Priscila Basílio, coordenadora do Ensino Básico, manifestou-se em nome da direção do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (Neabi) da UFRJ, alertando: “Não toleramos nenhum tipo de racismo na nossa escola. Nós somos uma escola democrática, que se propõe a um currículo afro centrado, um currículo indígena. Os professores e técnicos têm o comprometimento com um currículo que contemple todos os saberes. Racistas não passarão!”.

Resposta em uníssono

No convite para a manifestação no CAP, Comitê Permanente da Educação para as Relações Étnico-Raciais, em parceria com o Quilombo do CAp (Coletivo de trabalhadores negras e negros do CAp UFRJ), reivindica: “Precisamos dar uma resposta uníssona a esses comportamentos que não representam o nosso projeto de escola democrática, antirracista e socialmente justa”.

Segundo Jorge, houve também nota de apoio da Superintendência Geral de Ações Afirmativas, diversidade e Acessibilidade SGAADA), e o lançamento de um formulário para que o público subscreva a nota do Erer que, na manhã do dia 10, já contava com 374 assinaturas. A nota foi encaminhada também para a Comissão de Ética com cópia para o gabinete da Reitoria. “Estamos aguardando os encaminhamentos tanto da UFRJ quanto da investigação que vai ser feita pela Polícia Federal”, concluiu Jorge.

SGAADA se manifesta contra racismo e misoginia no Colégio de Aplicação

A Superintendência Geral de Ações Afirmativas, Diversidade e Acessibilidade da UFRJ (SGAADA/UFRJ) emitiu uma Nota de Desagravo Público condenando veementemente os atos de racismo, misoginia e desacato sofridos por um professor e servidoras, incluindo as diretoras, no Colégio de Aplicação. “A superintendência reforça que racismo é crime! A SGAADA exige providências jurídicas e institucionais firmes para responsabilizar os envolvidos e reafirma seu compromisso com um ambiente acadêmico seguro, plural e respeitoso. A presença de mulheres negras na gestão é um símbolo de resistência e avanço, e a UFRJ não tolerará o silenciamento dessas trajetórias”.

Nota do Complexo de Formação de Professores da UFRJ

Nota de apoio aos profissionais do CAp-UFRJ O Complexo de Formação de Professores-UFRJ expressa solidariedade aos profissionais do Colégio de Aplicação da UFRJ (CAp-UFRJ) vítimas de racismo, misoginia e violência, apoiando integralmente a nota emitida pelo Comitê Permanente da Educação para as Relações Étnico-Raciais (ERER). Destacamos a gravidade da prática de racismo recreativo e da intimidação contra profissionais negros, assim como o desacato e atitudes misóginas dirigidas a mulheres. Tais práticas só reforçam estruturas de opressão e, por isso, exigem posicionamento firme das instituições democráticas. Acreditamos na educação como ferramenta essencial para a construção de uma sociedade mais justa, igualitária, inclusiva e promotora de valores que garantam um convívio respeitoso dentro e fora do ambiente escolar.

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