Fragmentos de duas trajetórias ilustres

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A trajetória de André Rebouças e José Agostinho dos Reis, dois ilustres professores da Escola Politécnica da UFRJ no século XIX,  ambos negros e líderes abolicionistas, que romperam barreiras e abriram caminhos para as gerações futuras, foi devidamente reverenciada na 13ª Semana da Consciência Negra do Centro de Tecnologia (CT). Na terça-feira, 4, um espaço em memória aos homenageados passou a ocupar permanentemente uma parte do hall do Salão Nobre da Decania.

Na manhã de quinta-feira, 6, fatos relevantes da vida dos dois destacados personagens que conviveram na universidade foram revistos pelo professor aposentado do CT e pesquisador, Heloi José Fernandes Moreira, e pelo técnico em assuntos educacionais do Museu da Escola Politécnica e historiador, Hyago Carneiro Thomaz. A atividade, que prosseguiu à tarde, é organizada anualmente em novembro, Mês da Consciência Negra, pela Comissão Interna de Eventos da Decania do Centro.

Os homenageados

É provável que poucos estudantes das 11 especialidades de engenharias ministradas na Escola Politécnica saibam que, por vários anos, a partir de 1883, André Rebouças foi professor de engenharia civil na antiga unidade acadêmica que deu origem a atual, e era aclamado pelos seus alunos. “Pensar sobre ele é gratificante. Era extremamente meticuloso, fazia um diário onde anotava tudo, desde a hora que acordava até ir dormir. Um personagem dos mais citados e estudado do século XIX”, disse Heloi.

Nas suas pesquisas sobre o primeiro engenheiro negro formado na Escola Militar, baiano da província de Cachoeiras, nascido em 1838, Heloi descobriu que na entrada de Rebouças na carreira acadêmica, em 1867, correu um fato inusitado: “o Jacintho Luiz de Souza, um porteiro do prédio no Largo de São Francisco que o avisou que haveria concurso para docência na Escola”.

“Suas aulas eram preparadas cuidadosamente, com muita clareza. Seus alunos, que considerava como filhos, receberam uma formação bem atualizada. Se identificava com Pitágoras (filósofo e matemático grego) e Leon Tostoi (filósofo e romancista russo)”, resumiu Heloi. Era humanista e acreditava que nenhum animal da espécie mais insignificante deveria ser morto”, relatou o professor.

Apesar de abolicionista fervoroso (junto com José do Patrocínio e outros fundou a Confederação Abolicionista) por ser muito amigo de D. Pedro II era considerado monarquista. Inclusive, seguiu com a família real para o exílio, após a Proclamação da República. Segundo Heloi, ele defendia a ideia de democracia territorial, a reforma agrária, para que após a abolição, os ex-escravizados tivessem terras para não depender de senhores. Este também seria o pensamento do imperador.

A genialidade de André Rebouças na idealização e execução de projetos grandiosos da engenharia civil, sua produção de obras importantes para a área, dedicação a causa abolicionista e seu caráter humanista renderam ao ex-professor da Politécnica lugar de destaque na sociedade brasileira e nome de túnel no Rio. “Rebouças achava que D. Pedro queria fazer a democratização da terra, era contra o clero, mas acreditava em Deus, concordava com os positivistas em alguns pontos, no entanto, não seguia essa corrente filosófica. Ele produziu muito material para estudo”, concluiu o palestrante.

Heloi doou à Biblioteca da Politécnica um livro com a assinatura de André Rebouças que comprou em 2010 em um sebo: “Manual de Engenharia de Estrada de Ferro”, de 1882. A bibliotecária Janaina Silva recebeu o presente.

Um ex-escravizado na Politécnica

“O 20 de Novembro, Dia da Consciência Negra, é muito importante porque nos faz recapitular a história de conquistas políticas do movimento negro, a partir da mudança de perspectiva em relação ao 13 de maio, quando a Abolição da Escravidão era vista como uma concessão da princesa Isabel. E isso se deu no final da década de 70, observou Hiago Thomaz, que além de técnico em assuntos educacionais e pesquisador na UFRJ, é professor de História no município de Petrópolis.

Segundo o historiador, André Rebouças e José Agostinho dos Reis são exceções do século XIX, frutos de ações individuais, porque a violência colonial proibia os ex-escravizados de estudarem. “Poucos conhecem sobre Agostinho na instituição (UFRJ), mas ele nasceu escravizado, no Pará, e sua mãe comprou sua alforria vendendo quitutes. Estudou no Convento Santo Antônio como menino livre, porém, a sua condição de liberto criava uma série de empecilhos. A denominação de “humilde” substituía o título de ex-escravizado”, informou o pesquisador.

Ao ganhar um prêmio e o fato ser notícia de jornal, possibilitou a Agostinho seguir em frente. “Veio para o Rio de Janeiro em 1873 e entrou na Escola Central (mais tarde Politécnica), e se formou em 1879 em engenharia civil. Em 1880 disputou com o engenheiro Vieira Souto uma vaga de docência na Escola, sendo aprovado como professor substituto – Vieira ficou com a vaga de titular. “Agostinho contribuiu muito com o estudo da Estatística no Brasil”, disse Hiago.

De acordo com o estudioso, junto com Rebouças, Agostinho criou o Centro Abolicionista da Escola Politécnica e fazia parte da Confederação Abolicionista. Foi na inauguração da entidade que revelou ser ex-escravizado. “Dados históricos registram que Agostinho escreveu e publicou muitos artigos na imprensa, criou núcleos abolicionistas no Pará, onde era sempre recebido com honras, e saia com os alunos às ruas com cartazes contra a escravização. Depois de uma semana de movimento eles conseguiram a libertação de 19 remanescentes escravizados do Largo de São Francisco, onde funcionava a Escola, Mesmo depois do fim da escravidão”, expôs Hiago.

Trabalho nota 10!

É o mínimo que se pode falar da Comissão Interna de Eventos da Decania do CT, realizadora da 13ª Semana da Consciência Negra. Todo mérito aos companheiros: Josete dos Santos Lima, Regina Magalhães, RosanaTorres, Marlene Barbosa, Huascar Costa e Marcia Hermann.   FOTOS: RENAN SILVA

HIAGO THOMAZ E HELOI JOSÉ FERNANDES MOREIRA nas palestras no salão da Decania do CT: destaque para personagens ilustres

ANDRÉ REBOUÇAS E JOSÉ AGOSTINHO DOS REIS , os personagens lembrados no evento da UFRJ

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