
Na véspera de 1º de Maio, o Grupo de Trabalho Mulher do Sintufrj aliou o útil ao agradável. Aproveitando o clima do feriado do Dia do Trabalhador, realizou o Cine Mulher com a exibição do filme “Mulheres Perfeitas”, com direito a pipoca e um relevante bate papo.
Como introdução ao debate, a coordenadora Norma Santiago preparou um material com base no “Manual da Dona de Casa” de 1916, que retrata a desigualdade de gênero no início do século XX, especialmente no período da Primeira Guerra Mundial.
Manual

Norma Santiago produziu uma apresentação para explicar que o manual era um exemplo dos guias de comportamento feminino que eram publicados em revistas e livros e ditavam como a “boa esposa” deveria agir, promovendo comportamentos como discrição, silêncio, organização do lar e priorização do marido. Era regras impostas às mulheres onde havia também controle sobre o corpo.
“Isso revela a naturalização da desigualdade, a construção do machismo estrutural e a invisibilização das mulheres. Essa cultura perpetuou a desigualdade, o machismo e a desvalorização das mulheres, que ainda são visíveis hoje. As ideias do machismo continuam presentes hoje, muitas vezes de forma sutil”, afirmou Norma.
Filme

Já o filme “Mulheres Perfeitas”, do diretor Frank Oz, mostra uma executiva, Joanna, cujo personagem é interpretado pela atriz Nicole Kidman, que foi demitida do trabalho e cujo marido a leva para uma cidade do interior no intuito de ajudar e lá tudo parece muito perfeito. As casas são computadorizadas, a vizinhança nunca dá problemas, as crianças são alegres e as mulheres são excelentes donas de casa, bem arrumadas, obedecendo os maridos com grande dedicação. Ela fica intrigada e vai investigar de onde sai toda essa perfeição.
Debate
A psicóloga da Prefeitura, Alzira Trindade, falou sobre a representação da mulher na sociedade, criticando a ideia de perfeição e o modelo imposto pelo capitalismo. Ela celebrou a imperfeição, a luta das mulheres e a importância de cuidar do ambiente social e familiar. Alzira reconheceu as diferentes realidades das mulheres, desde as trabalhadoras até aquelas que lidam com tarefas domésticas e destacou a força e o amor como elementos importantes na vida feminina, em oposição à visão idealizada da mulher “perfeita”. E finalizou ressaltando a necessidade de combater o machismo e de construir uma imagem mais autêntica da mulher.
A coordenadora de Políticas Sociais Adriana Mattos criticou a pressão pela perfeição feminina e a dificuldade de a mulher lidar com as decepções. Abordou também a luta das mulheres por espaço e poder na sociedade, muitas vezes enfrentando obstáculos e julgamentos.
A companheira Gecilene Militão, do HUCFF, criticou o excesso de “modernidade” que leva a perda da capacidade de julgamento individual, especialmente no contexto da saúde. Ela citou exemplos de como a tecnologia e a falta de contato humano direto podem prejudicar a sensibilidade e a capacidade de cuidar dos outros. Ela criticou ainda no contexto da saúde a substituição da experiência e intuição humana por máquinas e dados o que em sua opinião resulta na perda da individualidade e da empatia.
A coordenadora de Aposentados, Marli Rodrigues, falou de uma entrevista com a atriz Carolina Dieckmmann falando a visão do avô sobre o seu casamento de longa data. O avô lhe disse que amar a mesma mulher por tantos anos significa amar diferentes mulheres em diferentes fases da vida. Ele criticou a ideia de que o homem deve amar a mesma mulher que ele conheceu no início do relacionamento, pois as mulheres mudam com o tempo.
Marli se identificou com essa ideia, refletindo sobre as mudanças que as mulheres passam ao longo dos anos e como a falta de compreensão dos parceiros pode levar ao fim dos relacionamentos. Ela citou sua própria experiência e a mudança que ela mesma passou ao longo dos anos.
“A vida te proporciona para que você mude, mas os homens muitas vezes não conseguem compreender essa transformação. A mulher evolui, trabalha, conquista independência, mas ainda enfrenta a expectativa de ser a responsável por todas as tarefas domésticas. Muitos homens se sentem ameaçados por essa independência, não entendendo que a mulher agora tem suas prioridades e não depende mais deles para tudo. Eu acho que o filme trata mesmo é a incapacidade de entender o mundo que as mulheres vivem, as transformações pelas quais a gente passa. Quando descobrimos que somos capazes, cada uma na sua profissão, os homens se sentem diminuídos. E a gente transforma o homem quando mostramos que não somos suas empregadas”, avaliou.
Marli destacou ainda que é importante a mulher ser independente nos relacionamentos, priorizar seus próprios interesses e objetivos, independente do casamento. “Nunca se anule por um homem. Busque sua realização pessoal e profissional. A mulher não tem que andar atrás do homem como se diz na igreja. Não. Ela anda ao lado do homem”, ensina.
A coordenadora Norma Santiago questionou a ideia tradicional de papéis de gênero, observando que a ascensão profissional e educacional das mulheres pode gerar insegurança nos homens. Ela criticou a mentalidade de “cabo de guerra” nos relacionamentos e a noção da mulher “perfeita” no lar, perpetuada por tradições e instituições como a igreja. Ela apontou a desigualdade nas tarefas domésticas e como as mulheres ainda reproduzem esses padrões, mesmo que busquem uma vida diferente.
“Eu achei esse tema bem interessante. Eu sempre questionei essa divisão de trabalho entre homem e mulher, porque na minha casa era assim, né? O homem, eu li em vários textos, ele está muito preocupado quando a mulher tem essa ascensão profissional, essa ascensão de educação. Tanto é que no filme eles falaram que as mulheres, quando elas trabalhavam, elas ganhavam mais, elas eram mais inteligentes. Então isso preocupa os homens de hoje também, por isso que muitos homens não gostam que a mulher trabalhe fora. E quando ela trabalha fora, ela muda, ela amplia os horizontes e começa a ter uma vida totalmente diferente, como Marli e Alzira relataram. Isso acontece com a maioria das pessoas casadas”, observou.
“Esse manual das donas de casa era aquela mulher perfeita e hoje em dia têm pessoas que ainda cultivam isso. A mulher recatada e do lar, isso tudo vem dessa época mesmo. Na igreja ainda prevalece esse tipo de discurso. E a gente, às vezes, reproduz essas coisas mesmo. Por que a mulher tem que chegar depois de um dia de trabalho e tem que ir para a cozinha? É desigual. Então, a mulher era preparada para administrar a casa, o marido, os filhos. Quando eu comecei a pesquisar sobre isso tinha umas fotos assim, a mulher colocando o sapato, colocando o sapatinho nos pés do marido. Então, assim, tem gente que reproduz isso ainda hoje. Nós mulheres reproduzimos isso. E quando você foge a esse padrão não é mais mulher para casar. Você é aquela mulher que o marido não vai te aguentar porque você questiona muito”, atestou Norma.
Livros sorteados
O tradicional sorteio agraciou a companheira do HUCFF, Gecilene Militão e a coordenadora Adriana Mattos. Os livros foram “Agressão” de Ana Paula Araújo e “Mulheres Não São Chatas, Mulheres Estão Exaustas “ de Ruth Manus. Uma bolsa do GT também foi sorteada e a sortuda foi a psicóloga da Prefeitura, Alzira Trindade.
Mensagem
A reunião do GT foi encerrada com uma mensagem de Adriana Mattos
“Mais um GT finalizado com sucesso. Nossa união hoje é a semente de um amanhã diferente. Lutamos hoje e nos apoiamos, não apenas por nós, mas por todas as que virão depois. Respeito não é favor, é direito.”




