“O cuidado é trabalho e saber”. Ativista afirma no GT Antirracista que os técnico-administrativos são também trabalhadores do cuidado

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Nossas experiências acabam sendo espelhos para desenvolvermos estudos, traçarmos teorias e instigarmos o debate. Foi sob esse prisma que a palestrante da reunião do GT Antirracista de 15 de julho, Márcia Ferreira, fez sua apresentação “Mulheres Negras, Cuidado e Liderança: Saberes que a Academia Ainda Não Aprendeu a Nomear”. O tema desta edição do GT do mês de julho foi “Relações de Trabalho e Questões de Gênero”.

A ativista do Movimento Negro Evangélico e coordenadora de Extensão da Escola de Formação Técnica em Saúde Enfermeira Izabel dos Santos fez um relato de suas vivências, observações e análise em relação a realidade da mulher negra que cuida, sustenta a família e preserva os saberes ancestrais. Márcia traçou também um paralelo de como o cuidado é trabalhado no meio sindical e no fazer técnico-administrativo.

Ela abriu o debate perguntando “O que muda na nossa prática – como servidores, sindicalistas e pessoas – quando a gente reconhece que o cuidado é trabalho, saber e liderança?”. Márcia sustentou que o conhecimento não se limita apenas aos livros, mais “está também nas mãos que cozinham, que lavam, que acolhem e que sustentam.”

Márcia falou também sobre os desafios colocados para a efetivação de políticas públicas para o cuidado. “Ainda faltam políticas de cuidado assumidas pelo Estado (creches, casas de acolhimento para idosos), não só pelas famílias; licença-paternidade ampliada e efetiva (ainda há escassez de dados sobre pais que cuidam); Previdência e reconhecimento para cuidadoras informais (o cuidado precisa ser visto como trabalho produtivo)”.

Trabalhadores do cuidado

Ao desenvolver seu raciocínio sobre o papel do meio sindical e do sindicato em relação a pauta do cuidado ela inquiriu. “Como valorizamos as colegas que são mães solo e arrimo de família? Como a pauta do cuidado entra na nossa luta sindical (jornada, salários, licenças)? Estamos prontos para desmontar a hierarquia dentro da própria UFRJ?”

O fazer técnico-administrativo foi abordado de forma singular. Márcia afirmou que os técnico-administrativos são trabalhadores do cuidado também. Pois são, segundo ela, aqueles que cuidam dos processos (burocracia, matrículas, laboratórios); cuidam dos estudantes (acolhimento, suporte, estrutura); cuidam do funcionamento da universidade –  o “chão” da instituição.

Sorteio

No tradicional sorteio do Projeto Leitura em Ação dos GTs  Antirracista e Mulher, os agraciados foram o coordenador José Carlos Xavier que recebeu o livro “Raça Social: Uma leitura sobre a racialidade brasileira” de Bárbara Carine, ele gentilmente cedeu o livro à palestrante Márcia Ferreira; e a coordenadora Maria Lenilva que recebeu o livro “Homens Pretos (Não) Choram” de Stefano Volp.

Autores

Bárbara Carine foi ganhadora do Jabuti de Educação em 2024. Raça social é um livro que contribui para os debates crescentes acerca da identidade racial brasileira, a partir do acúmulo histórico, político e epistêmico dos movimentos negros organizados. Entre os temas abordados, estão a noção de raça social como uma construção humana, os sistemas da branquitude e da negritude no Brasil, os ataques às políticas públicas de cotas raciais no país e o movimento NeoPardo como reprodutor de discursos racialistas de atomização para a dominação da comunidade negra brasileira. Um convite à luta pela justiça racial no Brasil.

Stefano Volp joga luz sobre as feridas, os medos e a solidão do homem, sobretudo o negro, para buscar respostas sobre uma sociedade incapaz de compreender as vulnerabilidades e sutilezas que existem para além da imagem que se constrói das pessoas. Lançado em 2020, o livro de Volp é composto por sete crônicas, e carrega incontáveis arquétipos e histórias que possibilitam uma reflexão sobre masculinidade e negritude. Sua obra contesta estereótipos na vida dos homens negros, fala sobre relações homoafetivas, questões familiares e pessoas. Além disso, é um incentivo para olhar a negritude a partir de outra perspectiva: da vulnerabilidade. Os homens pretos podem chorar.

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