Este 8 de março de 2026, Dia Internacional da Mulher, onde mundialmente serão realizadas manifestações de rua em praticamente todo o mundo, ele ocorrerá de forma singular no Brasil diante do aumento da violência à mulher.
Por dia quatro mulheres são mortas no país vítimas dos crimes de ódio. No município do Rio o registro de feminicídios triplicou, alcançando também adolescentes e meninas.
Na capital carioca, onde o ódio e a à violência às mulheres vem num crescente, o 8M será na “Princesinha do Mar” para denunciar e cobrar neste relevante cartão-postal da cidade que a vida das mulheres, adolescentes e crianças são preciosas e devem ser resguardadas. O ato é pela vida das mulheres, a partir das 10h, na altura do Posto 3, em Copacabana.
Escalada da violência
O país, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), alcançou em 2025 o maior número de feminicídios dos últimos 10 anos. No levantamento “ Retratos dos Feminicídios no Brasil” divulgado na última quarta-feira, 4 de março, foram mais de 13,7 mil casos desde a promulgação da lei do Feminicídio em 2015.
Segundo o levantamento, o feminicídio atinge majoritariamente mulheres adultas: metade das vítimas tinham entre 30 e 49 anos, o que corresponde a mulheres em idade produtiva e reprodutiva, e muitas vezes responsáveis pelo sustento da família e pelo cuidado de filhos e outros dependentes.
Os dados do FBSP revelam ainda um recorte racial assustador: 62,6% das vítimas são mulheres negras, o que revela a desigualdade estrutural e a maior vulnerabilidade socioeconômica enfrentada por essa parcela da população, muitas vezes com menor acesso a redes de proteção e políticas públicas eficazes.
De acordo com o Fórum, o local mais perigoso para as mulheres é a própria residência e o instrumento mais utilizado é a arma branca, como facas e machados presentes no cotidiano doméstico, seguida pela arma de fogo. Em cidades menores, a vulnerabilidade da mulher é ainda maior diante da escassez de serviços especializados, falta de sigilo e pressão comunitária conservadora.
Subnotificação mascara realidade
Especialistas apontam que parte do crescimento do feminicídio observado ao longo das décadas se deve ao aprimoramento na capacidade institucional de identificar e classificar corretamente os casos. Mas os números oficiais mostram a ponta do iceberg, dada a subnotificação dos casos.
Os números das vítimas chega a superar em 38% os registros oficiais, segundo o Relatório Anual de Feminicídios no Brasil 2025, elaborado pelo Laboratório de Estudos de Feminicídios da Universidade Estadual de Londrina (Lesfem/UEL).
Segundo a pesquisadora do Lesfem, Daiane Bertasso, integrante da equipe que elabora o relatório, diversas situações fazem com que o ciclo de violência sofrido por mulheres seja negligenciado. “O feminicídio não é um crime inesperado. É um crime que resulta de relações familiares e íntimas. Ele se dá depois de um ciclo de violências de vários tipos”, declara.
Daiane afirma também que o machismo, a misoginia e uma sociedade voltada para os valores masculinos contribuem para que as pessoas ignorem os sinais de violência que precedem os feminicídios. Ela dá exemplo de casos de repercussão na imprensa de mulheres que mesmo com medida protetiva contra seus agressores, não receberam efetivamente a proteção do estado e acabaram mortas por eles.
Aliada a falha institucional, segundo a pesquisadora, há a existência da masculinidade tóxica, mais um elemento que gera violência contra as mulheres no país. Daiane afirma que a “machosfera” têm fortalecido ideais machistas e misóginos, inclusive influenciando jovens e crianças.
Vidas acima do ódio e das violências
Os casos de ódio contra as mulheres que tem levado ao feminicídio e a violência sexual são gravíssimos. Por trás dos números que já são preocupantes estão as vidas de mulheres e adolescentes interrompidas de forma cruel e ou marcadas na pele e no coração para sempre.
Sob esse cenário em que quatro mulheres são mortas por dia no Brasil vítimas dos crimes de ódio – em 2025 alcançamos o recorde histórico de 1.568 feminicídios com uma alta de 3,4% em relação a 2024 – o Rio de Janeiro ocupa as manchetes com casos apavorantes.
O último evidenciado, o de estupro coletivo de uma adolescente realizado por cinco agressores em 31 de janeiro, mostra como está a realidade vivida pelo gênero feminino diante do recrudescimento da violência.
Feminicídio triplicou no município do Rio
Em relação ao aumento da violência sexual contra mulheres no município do Rio de Janeiro, segundo a 5ª edição do Mapa da Mulher Carioca, da Prefeitura do Rio, somente em 2024 houve 5.700 notificações de violência contra adolescentes, com três em cada cinco casos de vítimas de violência sexual sendo meninas.
De acordo com o estudo ainda, as mulheres são a maioria das vítimas de ameaça (65%,5%) e dos casos de lesão corporal no município foram 42.107 em 2024, o equivalente a 64,9% dos registros. A violência sexual mantem o mesmo padrão: das 1.701 notificações, 85,8% tiveram mulheres como vítimas, com mais de mil envolvendo crianças e adolescentes.
De 2020 a 2024, o registro de feminicídios triplicou no município, chegando a 51 casos consumados, além de 117 tentativas. Em dois terços dos casos, o autor era companheiro ou ex-companheiro.
Os números e dados que vem sendo apresentados em larga escala de forma geral e específicas apenas dão uma dimensão da situação no país e nos estados, haja vista que o medo e a vergonha acabam por silenciar a denúncia do horror que mulheres, adolescentes e crianças vivenciam sob o ódio e as violências de gênero que enfrentam cotidianamente.
CPI para o Rio
A deputada estadual, Renata Souza (PSOL), protocolei na Alerj um pedido de CPI para investigar os feminicídios no estado. Ela terá a responsabilidade de presidir a comissão, que terá seis meses para investigar, convocar autoridades e cobrar respostas concretas do poder público.
“O Rio de Janeiro vive um aumento alarmante da violência contra as mulheres e isso não pode ser normalizado. Não basta lamentar cada nova vítima. É preciso apurar falhas, identificar responsabilidades e transformar indignação em política pública efetiva”, afirma.





