Mais uma imprescindível frente de luta por igualdade se abre no SINTUFRJ: o 1º Encontro de Mulheres Negras, realizado na tarde do dia 9, no Espaço Cultural.
O lançamento contou com a presença da ativista Vilma Piedade que debateu o tema: “Dororidade. Mulheres Negras. Racismo. Resistência”.
O Encontro foi organizado a partir da iniciativa das companheiras Andrea Peçanha, Norma Santiago (Coordenação de Políticas Sociais), Selene Sousa (Coordenação de Aposentados e Pensionistas) e Yvone Gabriel, que formaram uma comissão para organização do encontro.
“Hoje fazemos história”
Norma, Selene e Yvone abriram o evento. Norma falou da saga até conseguir contato com Vilma na intenção de convidá-la para o 1º Encontro. E explicou também os passos até a criação da comissão. Mencionou ainda a importância de se olhar para o passado para construir o presente, mencionando a importância de suas avós, mãe e filha em sua vida.
Yvone apresentou a iniciativa; “Hoje nós fazemos história com o 1º Encontro de Mulheres Negras do SINTUFRJ. Este é um espaço de voz, escuta, organização e luta, criado para fortalecer nossa união, nossa representatividade e nosso protagonismo. Nós, Mulheres Negras, enfrentamos o racismo, o machismo e as desigualdades, mas somos também força, resistência e transformação. Que este seja o primeiro de muitos encontros e que nossa organização fortaleça cada vez mais a nossa luta”, disse ela.
Selene também destacou a importância do momento: uma ideia inédita que nasceu no coração de Norma e foi abraçado por todas da comissão. Um marco no SINTUFRJ: “Nós abraçamos esse movimento tão importante para as mulheres negras”, resumiu.
Dororidade
A palavra Dororidade foi cunhada por Vilma e é título do seu livro lançado em 2017, onde explica: “Além da violência do machismo, temos uma dor a mais: o racismo”.
Pós-graduada em Ciência da Literatura e graduada em Letras pela UFRJ, Vilma é professora, escritora, antirracista, mulher preta, feminista, integrante da Comissão de Relatoria da Revisão da Conferência de Durban. Escreveu também, entre muitos outros, o artigo “A cor da faxina no Brasil”, da obra “Criminologia Feminista no Brasil”.
Para ilustrar, “a cor da faxina”, contou o caso da historiadora Luana Tolentino que, em 2017 foi inquirida por uma “legítima representante da branquitude”: “Moça, você faz Faxina?”, que causou indignação nas redes sociais. E respondeu: “Não, eu faço Mestrado. Sou Professora”. O que, como aponta a escritora, sinaliza que o Racismo avança “a todo vapor”.
Agravo nesta dor
A palavra dororidade ganha dimensão política e social quando carrega, no seu significado, a dor provocada em todas as mulheres pelo machismo. “Contudo, quando se trata de nós, mulheres pretas, tem um agravo nesta dor. A pele preta nos marca na escala inferior da sociedade. E a carne preta ainda continua sendo a mais barata do mercado”, lembra Vania, referindo-se à música “A carne”, escrita por Seu Jorge, Marcelo Yuka e Ulisses Cappelette e imortalizada por Elza Soares há mais de duas décadas.
O termo sororidade (do latim “soror”, irmã) significa o apoio mútuo entre as mulheres diante de uma sociedade machista), mas “Dororidade” vai mais longe: deriva da palavra dor, que tem origem no latim (dolor). “A sororidade parece não dar conta de nossa pretitude”, explica. E foi a partir desta percepção que Vilma pensou o novo conceito que apesar de novo já carrega um fardo antigo, velho conhecido das mulheres: a dor, mas neste caso, a que só pode ser sentida a depender da cor da pele. “Quanto mais preta, mais racismo, mais dor”.
E foi assim, contando casos, dando exemplos de racismo reiterado na linguagem, na música, mostrando vídeos com imagens impactantes de discriminação e de resistência, que a ativista e intelectual foi consolidando – em quase duas horas de palestra – a necessidade do enfrentamento e de transformar essa dor em potência.
Participação intensa
Estavam presentes outras coordenadoras do SINTUFRJ, como Maria Lenilva (Educação, Cultura e Formação Sindical), Rosemere Roza (Administração e Finanças) e Ana Célia (Aposentados e Pensionistas).
Silvany Euclênio, historiadora, professora e ativista de destaque na educação antirracista e na preservação da ancestralidade africana, editora e mediadora do canal do YouTube Pensar Africanamente também prestigiou o evento.
Luíza Borba, secretária de Combate ao Racismo da CUT-RJ conta que está uma vez por mês nas reuniões do GT Antirracista do SINTUFRJ que considera importante para todos, para a formação de consciência de classe e racial: “É o que a classe trabalhadora precisa”.
Ela estava, como de outras vezes, acompanhada do filho, Estevão, de 12 anos, que, incentivado pela palestrante, deu uma pequena mostra, ao microfone, de como canta bem, em particular músicas de Caetano Veloso. Ele conta que faz questão de comparecer aos encontros com a mãe porque quer base para demonstrar aos amigos da escola que não existe racismo reverso (como lembra a filósofa Djamila Ribeiro, não há racismo de negros contra brancos porque racismo é relação de poder).
Estavam neste 1º Encontro também diversas companheiras da base que se manifestaram, uma a uma, contando um pouco de suas origens e destacando a relevância do evento para municiar a luta antirracista.
Fotos: Renan Silva

Vilma, ao centro, ao lado de Estevão, com Silvany, Norma, Luíza, Selene e Yvone

“Intempestiva – Amor em Oyá”
Esse é o nome da performance apresentada por Ariane Mendonça, arte-educadora, “artivista”, estudante de Licenciatura em Dança pela UFRJ, mãe, professora de séries iniciais.
Intempestiva é, segundo explica, um manifesto em movimento: “Nascida da urgência de responder às violências do cotidiano, a performance une a força das vivências de matriz africana ao conceito potente de escrevivência. Uma obra viva que transborda a sala de aula e ganha a cena para provar que a existência da mulher negra é um território legítimo de criação, cura e poder”.
Com experiência em Jazz, Dança Contemporânea, afro e danças populares, Ariane atua como pesquisadora de cultura popular na UFRJ; é professora de corpo e movimento no Instituto Beja para idosos, professora auxiliar no Curso Toques, Cantos e Danças dos Orixás pelo Centro de Tradições Afrobrasileiras.
Fotos: Regina Rocha

Lembranças
Ao final do evento, as coordenadoras sortearam brindes para os presentes: livros da autora, camisas, canecas e bolsas comemorativas do 1º Encontro que terminou com um pequeno lanche no Espaço Cultural.

Memória
O Jornal do Sintufrj cobriu a participação de Vilma Piedade no 3º Festival do Conhecimento da UFRJ em 2020, debatendo o conceito de “Dororidade”.
Leia mais em: https://sintufrj.org.br/2020/07/resistir-e-transformar-a-dor-em-potencia/




