Jornalista sem ceticismo não informa

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“Para mim, a solução para as fake news e para a dominação da grande mídia no Brasil é criar alternativas”, disse o jornalista Glenn Greenwald. Segundo um dos fundadores do The Intercept/Brasil que também é advogado constitucionalista, a realidade do jornalismo aqui não é das piores, e citou como exemplo o fato de a reportagem mais influente do ano passado não ter sido publicada em O Globo, na Folha de São Paulo ou no Estadão, mas da The Intercept Brasil, numa referência a série que ficou conhecida como Vaza Jato.

Ele também chamou atenção para a quantidade de blogueiros e canais independentes que existem no país e que estão aumentando sua influência, e até também outros veículos de prestígio internacional como a BBC Brasil e El País. A respeito do debate sobre as fake news, que considera como uma questão muito “robusta” no Brasil, Glenn afirma que é algo muito perigoso, especialmente quando envolve assuntos como a pandemia do coronavírus.

“Pandemídia, jornalismo e democracia” foi o tema do debate na segunda-feira, 20, que reuniu no Festival do Conhecimento da UFRJ Glenn Greenwald e Suzy Santos, que é diretora da Escola de Comunicação da UFRJ.

No Brasil, segundo Suzy Santos, há muitos donos de mídia atrelados ao espaço político e religioso, e embora o discurso de independência jornalística seja uma pauta bastante forte, ele não bate com os modos de financiamento.

Festival
A pró-reitora de Extensão Ivana Bentes na apresentação dos palestrantes, lembrou que o jornalista revelou para o mundo “como somos espionados pelos governos, no caso Snowden, com um trabalho extraordinário de jornalismo investigativo que mostrou o estado de vigilância implantado pelo governo norte americano”.

Premiado, Greenwald coordenou, no The Intercept Brasil, as reportagens da Vaza Jato, “que mostrou o comportamento pouco republicano do ex-ministro da Justiça Sergio Moro, produtor da denúncia e da força tarefa da operação Lava Jato”.

Seu último livro “Sem lugar para se esconder”, contou Ivana, fala deste permanente vigilantismo, assim como a reportagem sobre a NSA, agência de segurança nacional dos EUA, que garantiu para o The Guardian o prêmio Pulitzer de 2014 na categoria de serviço público. “Glenn Greenwald é um jornalista investigativo que presta serviço público para o Brasil e para o mundo”, resumiu.

Suzy Santos coordena o grupo de pesquisa de Política e Economia da Informação e da Comunicação (PEIC) da ECO, escola que dirige, e a pesquisa sobre discurso de ódio, muitas vozes, privilégio, prestígio, fé e economia política da comunicação em tempos de desdemocratização. Autora, com Janaine Aires do livro “Sempre foi pela família: mídias e políticas no Brasil”.

Debate fundamental
Glenn disse que aceitou imediatamente o convite da UFRJ quando soube do tema do evento. A ideia de debater a pandemia com jornalismo, política e democracia considera crucial e fundamental: “Falamos muito em pandemia, sobre democracia e política, sobre o Brasil onde a democracia está sendo ameaçada e também sobre jornalismo, mas muito raramente discutimos as três coisas juntas, Isso é importante e interessante para mim porque na realidade, a história da crise da Covid é uma história dos três.

Ele comentou que é normal numa crise como esta pandemia global, ouvir especialistas na saúde pública e a Organização Mundial da Saúde, mas que algumas vezes, nos últimos seis meses, erraram. Por exemplo, quando no início da pandemia, o governo da China falava que tinha dúvidas sobre a transmissão de um humano para outro, ou quando especialistas não recomendavam o uso de máscaras contra o vírus, ou que havia dúvidas se a pessoa sem sintomas tem capacidade de transmitir o vírus e ainda sobre a não sobrevivência no ar.

“Agora, em julho, sabemos que tudo isso é errado”, disse ele, explicando que não queria dizer que a organização ou os especialistas erraram por causas ruins. “Provavelmente porque humanos erram, ainda mais sobre um vírus complexo, novo e que demora para ser entendido. Ou talvez por motivos um pouco menos puros. É bem provável que algumas coisas que estão falando seja por motivo político e não estou criticando, porque é um motivo válido para uma instituição assim. Estou falando que não existe uma instituição de humanos que tenha motivos puros e que nunca errou”, justificou as falhas iniciais de diagnóstico da doença.

“Então, para mim, como jornalista, o valor mais importante é ser cético. Ceticismo é o que a gente sempre tem que ter, dúvidas sobre quem a gente está ouvindo, das instituições, Nunca podemos confiar, sem exigir evidências”, disse.

Segundo ele, muitos citam veículos como The New York Times e CNN, como confiáveis. No entanto, lembrou, há 20 anos, época da invasão do Iraque, numa guerra que destruiu um país e que até hoje muitos sofrem, foi uma ação fomentada por fake news que persuadiram grande parte da população nos Estados Unidos de que o Iraque tinha armas químicas que, na realidade não tinha.

“Isso foi um exemplo muito grave de informação falsa sendo disseminada. Não pelos sites do bolsonarismo, nem pelos sites novos que estão lucrando com fake news, mas por organizações jornalísticas com credibilidade e respeitadas”, diz ele, explicando que isso aconteceu porque naquela época, o governo dos Estado Unidos estavam afirmando muitas coisas que ninguém queria questionar, principalmente depois do ataque de 11 de setembro: “Mesmo jornalistas que têm obrigação principal de questionar, ter dúvidas, ceticismo sobre tudo que autoridade está falando, falharam neste dever. Estavam publicando, dia após dia, falsidades, sem questionar confiando em tudo que o governo estava falando, o que causou uma guerra horrível!”

Nunca confiar de forma cega
“Espero que esta crise na saúde pública que estamos vivenciando nos ensine que é muito importante nunca confiarmos de forma cega no que estamos ouvindo das autoridades, mesmo autoridades que parecem confiáveis. Para mim, a reportagem que fiz com meus colegas do The Intercept Brasil, da revista Veja, Folha de São Paulo e outros jornais brasileiros sobre a Vaza-Jato mostrou a mesma lição”.

O jornalista contou que durante cinco anos a força-tarefa da Lava-Jato e o juiz Sérgio Moro foram vistos como quem nunca erravam, mentiamn ou nunca foram corruptos. Então, tudo que disseram ou fizeram foi aplaudido pela mídia e, por causa disso, pela população brasileira. E agora sabemos que muitas coisas que estavam fazendo ou afirmando foram antiético, falso, tinha motivos errados. “E porque isso aconteceu? Pelo mesmo motivo que estávamos falando: a grande mídia no Brasil parou de questionar, de ter ceticismo sobre o trabalho da força tarefa. Tratou como uma instituição inviolável” e concluindo, reafirmando:

“Não precisamos aceitar de forma cega nada que alguém está falando, temos a capacidade de avaliar qualquer afirmação para saber se tem evidência, e é preciso manter isso na política, no jornalismo, na democracia e na saúde pública”.

 

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