
“Eu não entendo como uma pessoa que enxerga o país à sua volta, vive suas desigualdades e sabe a causa das suas misérias pode não ser de esquerda. Ser de esquerda não é uma opção, é uma decorrência”. A frase de Luís Fernando Veríssimo circulou amplamente nas redes esta semana.
Foi uma das tiradas precisas do escritor em entrevista ao jornal Folha de São Paulo (reproduzida pela Revista Fórum em 2020 com o título “”Ser de esquerda não é uma opção, é uma decorrência”,) sobre política.
Unanimidade na literatura nacional, “um gênio” e gigante”, como apontaram dramaturgos, escritores, chargistas, atores, o autor que morreu no dia 30 de agosto, aos 88 anos, em Porto Alegre, por complicações em um quadro de pneumonia. Estava internado desde 11 de maio.
Conseguiu reunir caraterísticas como sofisticado e popular, como aponta a biografia da publicação “Veríssimas”: filho do romancista Erico Verissimo, e autor de best-sellers como O melhor das comédias da vida privada e As mentiras que os homens contam. Criador de tipos marcantes como a Velhinha de Taubaté, Ed Mort, O Analista de Bagé, Família Brasil e As Cobras, escreveu semanalmente para os jornais O Globo, O Estado de S. Paulo, Zero Hora e tem livros publicados em quinze países.
Amava música e tocava saxofone no grupo ‘Jazz 6’, quinteto formado em 1995, com cinco álbuns e que fazia show pelo país.
Defesa da democracia
Como lembra o Brasil de Fato, Veríssimo eternizou em crônicas, contos, tiras, quadrinhos e romances, sua crítica ao autoritarismo e à ditadura civil-militar.
Isso foi lembrado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao prestar homenagem ao célebre escritor. Ao citar a criação de “personagens inesquecíveis”, como o Analista de Bagé, As Cobras e Ed Mort, Lula destacou que Verissimo “como poucos, soube usar a ironia para denunciar a ditadura e o autoritarismo; e defender a democracia”.
Tiras e tiradas
Na entrevista à Folha, Veríssimo falou, por exemplo, sobre como um de seus personagens. o Analista de Bagé receberia Bolsonaro: com um joelhaço e que trataria certos aspectos no governo. “Envolveria tratamento com águas, lobotomias e talvez uma nova eleição. Séria, desta vez”.
E sobre o ódio nas redes sociais ” Prova do que eu sempre digo: o mundo não é mau, é só muito mal frequentado.”.
Veríssimas

Para se ter uma ideia da ironia fina de Veríssimo, veja a seguir, algumas das frases (e ilustrações) selecionadas para a antologia Veríssimas, garimpadas em livros, crônicas e entrevistas publicadas me veículos para os quais o escritor trabalhou, como Zero Hora, Playboy, Careta, Bundas, Veja, Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo, Jornal do Brasil e revista Domingo. Em alguns casos, as frases foram especialmente reescritas pelo autor para a edição.
Glossário
BARBÁRIE Engels disse que no fim a escolha seria sempre entre socialismo e barbárie. A barbárie nós sabemos como é, basta olhar em volta, resta redefinir o socialismo. (Cf. Capitalismo)
CARPE DIEM Viva todos os dias como se fosse o seu último. Um dia você acerta.
CLASSE O Brasil é formado por uma classe dominante e uma classe ludibriada.
ÚLTIMAS PALAVRAS Eu gostaria de ser lembrado como um cara decente. Um cara decente como foi meu pai, decente em todos os sentidos da palavra. E que, sei lá, tocava um blues respeitável.
Obras Icônicas
O Brasil de Fato reuniu quatro obras icônicas de Verissimo que enfrentaram o regime civil-militar e seu legado.

- A Velhinha de Taubaté

A Velhinha de Taubaté se tornou ícone nacional e foi criada em uma crônica em 1983, no período final da ditadura no país, durante a gestão de João Batista Figueiredo, o último presidente do regime. A personagem era apresentada como “a última pessoa no Brasil que ainda acreditava no governo”.
A obra também era vista como uma homenagem divertida a Taubaté (SP), berço de nomes como Monteiro Lobato, Mazzaropi e Hebe.

- As Cobras
Luís Fernando Verissimo publicou entre 1975 e 1999 a tira As Cobras em jornais do país, principalmente em Zero Hora. As personagens principais são duas serpentes que discutem temas que vão desde política e futebol até a imensidão do universo.
Segundo o escritor, elas tinham nascido para traduzir através do desenho o que suas palavras estavam impedidas de dizer durante a censura da ditadura.
- O condomínio
Publicado em 1982, o conto “O condomínio”, de Luis Fernando Verissimo, conta a história de João, um ex-militante de esquerda que se muda para um luxuoso e recém-construído condomínio fechado e se depara com o homem que o torturou no elevador.
“O condomínio” ecoa os princípios de reconciliação nacional expressos na Lei da Anistia de 1979 em um momento em que o Brasil vivia a transição democrática.
- A mancha
Lançado em 2004, o conto “A mancha” integra a coleção “Vozes do golpe”, publicada pela Companhia das Letras. O conjunto de textos narra os últimos momentos do governo de João Goulart no Brasil e como foi ver surgir e viver a ditadura.
Na obra de Luis Fernando Verissimo, o protagonista Rogério, que foi torturado pelo regime de 64, volta do exílio após o fim da ditatura, e ao passar a trabalhar no ramo imobiliário, acaba visitando o prédio em que foi submetido a tortura.
“O conto é sobre a derrota de uma geração que apostou em mudanças, mas que foi engolida pelas forças conservadoras, pelos valores do capital. E por essa via a narrativa faz uma leitura primorosa da elite brasileira, inclusive, ou sobretudo, da que dá suporte ao bolsonarismo”, escreveu sobre “A mancha” o escritor e professor de literatura da Universidade Federal da Paraíba Rinaldo de Fernandes.
Outros personagens

- Ed Mort. – personagem criado em 1979 como paródia das histórias norte-americanas de detetives, É um detetive particular trapalhão e sempre sem dinheiro, que se mete em todo o tipo de encrencas. Ele divide seu espaço – um escritório em Copacabana, que ele chama apenas de “escri” porque é muito pequeno – com cento e dezessete baratas e um rato albino chamado Voltaire. Suas dezessete histórias estão compiladas em livros como Ed Mort e Outras Histórias (1979). O personagem foi adaptado para os quadrinhos em tiras diárias desenhadas por Miguel Paiva, peça de teatro, especial de TV e para o cinema.

- Analista de Bagé – sua publicação se iniciou em 1981, ganhando, além da literatura, versões em quadrinhos e no teatro. Publicado originalmente em forma de crônica, e editado em diversos jornais do país, o personagem representa um gaúcho, psicanalista supostamente freudiano de linha ortodoxa de palavras marcantes e ilustrativo da sabedoria popular do Rio Grande do Sul. “<ais ortodoxo que pomada Minancora“ ou que as “Pastilhas Valda”. Sua técnica do joelhaço, no entanto, é bastante heterodoxa, a depender do ponto de vista. Ela está baseada no princípio da dor maior, que faz com que se esqueça das dores “menores”.

- Família Brasil – Um pai trabalhador, uma mãe que é dona de casa, um filho adolescente, um neto pequeno e uma bebê de colo retratam o universo da família brasileira. Com eles, Verissimo retrata situações que quase todo mundo já viveu dentro de casa – desde problemas financeiros até dilemas da educação..
- Dora Avante. – Dora Avante, ou Dorinha, critica as dondocas da alta sociedade, com suas ideias fúteis, a instabilidade de seus relacionamentos amorosos e a obsessão pela eterna juventude. É sempre apresentada como ravissante, um adjetivo francês bem característico das colunas sociais (em português, esfuziante). Só Deus e Pitanguy sabem quantos anos ela tem e ela confia na discrição dos dois. Ela apoiou a eleição do Collor, mas foi dela a iniciativa das caras-pintadas contra o Collor, embora sua ideia original fosse pintar todo o corpo nu, não só a cara. [5]
Para conhecer mais

O Melhor das Comédias da Vida Privada (1994)
Na coletânea, Veríssimo reuniu crônicas com sobre o cotidiano brasileiro, reunindo seus personagens antológicos como Dr. Pompeu, a mulher do Silva e Regininha. Publicado pela editora Ponto de Leitura, a obra se tornou uma série televisiva em 1995, com direção Jorge Furtado e Guel Arraes, e contou com participações de Fernanda Torres, Marieta Severo e Andréa Beltrão.
Sexo na Cabeça (1999)
Com 45 crônicas, a seleção traz as histórias de Verissimo sobre um tema tão popular e que ‘vive na cabeça de todos’: sexo. É o quarto volume da série Verissimo, que relançou toda sua obra com revisão do autor.
As Mentiras que os Homens Contam (2000)
A obra que chegou a ser leitura obrigatória do vestibular da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Verissimo reúne das mentiras mais brandas até as complexas que dizemos no dia a dia. Se tornou um dos livros mais vendidos de sua trajetória.
Os Espiões (2009)
Em “Os Espiões”, seu sexto romance, um editor se encanta pelos textos de uma mulher que assina como “Ariadne” – personagem da mitologia grega que ajuda Teseu a sair do labirinto. Nas mãos de Verissimo, Ariadne ganha novos contornos às avessas, e enfeitiça o protagonista e seus amigos de bar. Apesar de já ter escrito outras novelas, esta é a primeira obra escrita pelo autor gaúcho se ter sido ‘encomendada’, ao que Verissimo chamou de “primeiro romance puramente seu”.






