Josete Lima, referência das ações voltadas para negros na universidade, foi reverenciada
Na 13ª Semana da Consciência Negra do CT o dia 6 de novembro foi reservado para homenagear personalidades e pessoas que fortalecem, com sua atuação e compromisso, a luta por igualdade e reconhecimento. Na parte da tarde houve a celebração de profissionais da UFRJ, da militância e da sociedade.
Foram homenageados a coordenadora de Políticas Sociais do Sintufrj, Norma Santiago, a professora da Escola de Educação Física e Ouvidora da UFRJ, Angela Brêtas, o biólogo Jorginaldo de Oliveira, o vice-presidente do Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro Sidney Pascoutto, e a ativista Pretta Gonçalves.
A organizadora do evento, Josete Lima, uma referência das ações voltadas para os negros na universidade teve sua pessoa e seu trabalho reverenciados pelos participantes. A chacina promovida pela operação policial nos Complexos do Alemão e da Penha dia 28 de outubro não passou em branco no encontro. Ao final uma oficina de danças urbanas com o grupo Comunidança da Escola de Educação Física da UFRJ encerrou o dia.
A abertura da atividade reuniu a superintendente de Ações Afirmativas, Diversidade e Acessibilidade da UFRJ (Sgaada), Denise Góes, o decano do Centro de Tecnologia (CT), Walter Suemitsu, a coordenadora de Políticas Sociais do Sintufrj, Norma Santiago, a diretora adjunta da Coppe, Vanda Borges, e o diretor substituto do Instituto de Macromoléculas, Emerson Oliveira.
Protagonismo negro
Denise Góes celebrou o avanço da discussão sobre questões raciais na universidade. Militante do movimento negro, enfatizou a importância da interlocução com movimentos sociais, incluindo indígenas e quilombolas, e criticou a falta de representatividade e a invisibilização histórica do povo negro. Ela ressaltou a importância de políticas públicas e a mudança na abordagem sobre questões raciais e de gênero, creditando o progresso ao ativismo do movimento negro. Ela afirmou a necessidade de representação e poder negro na universidade, cobrando a aplicação de cotas raciais na estrutura da universidade.
“Quero aqui registrar o protagonismo do movimento negro e de todas as entidades que compõem o movimento negro brasileiro, porque sem a obstinação do movimento negro nós não estaríamos aqui hoje nessa mesa falando da pauta racial. E como diz Nil Marino Gomes, uma grande educadora, tudo o que o Brasil sabe sobre missão racial deve ser o movimento negro. Então, eu trago pra mim sim, trago pro povo negro sim, esse protagonismo dentro da luta. Temos hoje uma representação importante de mulheres negras nessa administração central, que é importante, mas nós precisamos cobrar os 30% de cargos efetivos e comissionados para as pessoas de poder”.
Ela celebrou o empoderamento e o aumento da comunidade negra na universidade. Parabenizou aqueles que abriram portas e lutam por igualdade, criticou a exclusão histórica e defendeu a necessidade de uma universidade mais inclusiva e menos homofóbica. Ressaltou a autoria, a luta e a conquista de espaços como pilares da identidade negra.
“Nós falamos por nós, a história é nossa, do povo negro. Então, parabenizo você, Josete, por ter aberto essa porta, e parabenizo hoje todos os negros e negra, estudantes, técnico-administrativos, que estão na luta nas comissões de heteroidentificação para garantir a efetivação das políticas públicas e enegrecer essa universidade que é muito branca. E nós agora saímos de 3% e hoje configuramos quase 40% do perfil racial dessa universidade. Isso é muito por conta da nossa luta. Nós somos os protagonistas”.
Denise finalizou sua fala destacando a atuação do Sintufrj na luta racial e a importância da Sgaada.
“Desde 1996 o Sintufrj é um parceiro incondicional dessa luta, através do seu jornal semanal, através do GT Antirracismo. Nós temos um GT Antirracismo que discute isso há muito tempo e que sempre foi invisibilizado. Então, através da Sgaada, que é essa superintendência que hoje faz parte da administração central, o tempo de ser pé-de-boi, que é aquele tarefeiro, já se foi. E vamos pensar e elaborar juntos essa universidade negra, menos homofóbica e que dê oportunidade para todos.”
Avanços e oportunidades
O decano do CT, Walter Suemitsu, celebrou as vitórias alcançadas, especialmente na luta contra o racismo, destacando o evento da Semana da Consciência Negra na universidade. Ele parabenizou os homenageados, a equipe organizadora e a comunidade universitária pelo progresso, mencionando o impacto positivo das cotas e a crescente representatividade negra na universidade.
A diretora adjunta da Coppe, Vanda Borges, primeira mulher afrodescendente e técnica-administrativa a integrar a diretoria da Coppe, elogiou o trabalho de Josete e falou que as reflexões possam descortinar novas oportunidades para os pretos e pardos na universidade.
O diretor substituto do Instituto de Macromoléculas, Emerson Oliveira, enalteceu o encontro.
“É um momento em que a gente pode se reunir e refletir sobre a nossa condição, sobre como a gente lida com o racismo. Nós sofremos muito com o racismo estrutural, que apesar de ser silencioso, sutil, ele é cruel, devastador e integrado em nossa sociedade.”
Combate ao racismo
A coordenadora de Políticas Sociais do Sintufrj, Norma Santiago, uma das homenageadas no evento, destacou a importância da união e reflexão sobre o racismo estrutural, assim como é necessário combater o racismo em todas as suas formas e manifestações.
“Queria afirmar a importância desse momento, dessa comunhão de pessoas, para a gente celebrar os nossos ancestrais, pessoas que trabalharam arduamente para que a gente estivesse aqui nesse momento, o momento de celebrar, o momento de reflexões também, principalmente, para reafirmar o local onde nós estamos inseridos e aonde queremos ficar. Apesar da libertação dos negros escravizados, nós continuamos ainda reafirmando o nosso posicionamento, o nosso direito de existir, o nosso direito de estar, e de permanecer onde nós precisamos e queremos. Que a gente possa entender o que é o racismo, o que é um racismo institucional, o que é um racismo estrutural.”
Já na mesa dos homenageados, Norma compartilhou sua identidade e falou sobre a importância de resgatar a história e as conquistas da população negra, citando exemplos como André Rebouças, Juliano Moreira, Maria Olindina e Maria Firmino. Ela enfatizou a necessidade de combater o racismo e as injustiças, como no caso da professora Erika Visto, que teve um concurso público cancelado devido a pressões racistas. Norma ressaltou a importância da luta antirracista e a afirmação da identidade negra.
“O racismo institucional está aí, o estrutural também, então nós temos que estar cada vez mais combatendo. Por que como dizem, não adianta não ser racista, tem que ser antirracista. As pessoas têm que começar a dizer não, não aceitamos mais isso”.
Educação antirracista
A professora Angela Brêtas expressou sua indignação com a operação policial de 28 de outubro nos Complexos do Alemão e da Penha, criticando a “necropolítica” do governo Cláudio Castro. Colaboradora do Sgaada, ela apresentou o projeto de educação antirracista da UFRJ que está sendo implementado no município de Paracambi, desde 2003, nas escolas municipais.
“O projeto visa dialogar com professores, entender os desafios e construir uma educação antirracista verdadeira, focando na compreensão das raízes e manifestações do racismo. Essa experiência de educação na prefeitura de Paracambi, nas escolas de Paracambi, também tem a ver com a construção de uma sociedade verdadeiramente democrática, no sentido de que não há democracia se houver racismo, não há democracia se houver exclusão, não há democracia se houver miséria. A gente luta por uma sociedade na qual todos tenham direito à vida, na qual todos tenham direito a uma vida digna, a uma educação de qualidade e que tenham o seu lugar no mundo garantido, independente de quem sejam, independentemente de sua origem. E é por isso que nós lutamos, é por isso que nós estamos em Paracambi. A Universidade Federal do Rio de Janeiro está em Paracambi fazendo um trabalho que é muito valioso para nós e temos sido muito bem recebidas.”
Representatividade negra
Jorginaldo de Oliveira, biólogo com mestrado e especializações, trabalha com conservação e educação ambiental. Ele compartilhou sua experiência, destacando a importância da universidade para crianças de escolas públicas e a abertura da UFRJ para projetos de inclusão.
O técnico-administrativo lembrou a importância da ancestralidade e da representatividade negra na universidade, destacando a mudança em relação ao passado. Ele enfatizou a necessidade de compartilhar histórias e conquistas para inspirar os alunos e impulsionar o crescimento.
Jorginaldo que ocupa diversas posições de destaque na universidade – representante técnico do seu departamento, representante técnico do Instituto de Biologia, representante técnico do Conselho de Centro do CCS, único representante técnico administrativo na Coordenação de Biodiversidade de toda a universidade e negro – em sua fala priorizou ouvir e incentivar o diálogo, reconhecendo a importância da representação dos negros nos espaços e a sua relevância nas conquistas individuais e coletivas.
Mobilidade social
Sidney Pascoutto, ex-aluno da UFRJ, com graduação em Economia e mestrado em Planejamento Energético, relembrou sua trajetória e a escassez de estudantes negros na universidade na década de 1970.
Ele destacou a importância da democratização do Estado, criticando o sistema de contratações durante o regime militar e a perda do papel do Estado. Falou de sua carreira como professor e pesquisador, ressaltando a necessidade de avanços na sociedade.
Em sua fala, abordou a frustração com o rumo das empresas estatais no Brasil após a democratização.
“Eu e meus colegas, antes, debatíamos o futuro da Eletrobras e da política energética, com foco no controle público e em concursos. Após a democratização, as elites conseguiram desmoralizar a gestão pública, abrindo caminho para privatizações e reformas patrimoniais que silenciaram o debate sobre o destino dessas empresas e seus lucros.”
Ele defendeu a importância das estatais para a juventude, a mobilidade social e a melhoria de vida, especialmente para a população negra.
“Essas empresas são fundamentais para dar perspectiva para a nossa juventude que está saindo das universidades. São elas que podem garantir uma maior acessibilidade do povo brasileiro, do povo negro em especial, à mobilidade social, à mobilidade de renda, a melhores soluções de vida.”
Luta coletiva
Pretta Gonçalves destacou a importância de Josete Lima como referência negra na universidade e elogiou sua atuação. Ela ressaltou a luta contínua das mulheres negras, a força ancestral e a necessidade de resistir às tentativas de marginalização. Enfatizou a importância de manter a dignidade e lutar por reconhecimento, afirmando que a história do Brasil é inseparável do povo negro.
A ativista criticou a operação policial nos Complexos do Alemão e da Penha, descrevendo-a como um ato de violência e genocídio. Ela questionou a “inteligência” da operação que resultou em mortes sem capturar os verdadeiros chefes do tráfico, acusando o governador Cláudio Castro de usar a ação para fins políticos. Pretta alertou para a necessidade de uma luta coletiva contra o racismo, incluindo a participação de pessoas brancas nessa luta.
“A luta do nosso povo precisa e deve ser coletiva, urge que seja coletiva, para que nós possamos ocupar mais espaços como esse aqui, com mais espaços na academia, mais espaços em centros tecnológicos, mais espaços em posições de poder. Nós já avançamos muito, mas inda há muito que avançar. A gente precisa de pessoas antirracistas que se comprometam, que leiam, que estudem o que é o racismo, que tomem ciência dos seus privilégios, porque talvez você não cometa o racismo, mas você vive dos privilégios que os racistas lá atrás conquistaram.”
Pretta defendeu a importância da interseccionalidade para a democracia, especialmente no contexto da luta das mulheres negras. Relatou experiências de racismo e transfobia em um evento, criticando a exclusão de mulheres brancas e a forma como o feminismo branco e, por vezes, homens negros, tratam as questões raciais. A ativista encorajou a continuidade da busca por espaços de representação e empoderamento, citando o exemplo de iniciativas como essa dentro da universidade e reiterando a afirmação de que “as mulheres negras não pedem liberdade, mas a conquistam.”







