O antropólogo Lenin Pires foi o convidado do programa Agenda Brasil do Sintufrj de 31 de agosto. Professor, pesquisador e diretor do Instituto de Estudos Comparados em Administração de Conflitos da Universidade Federal Fluminense falou com propriedade de um dos temas que mais afligem o brasileiro, principalmente nas grandes cidades, que é a segurança pública.
O sensível olhar do antropólogo é realizado sob um viés social tendo sua natureza crítica advinda também da sua trajetória política como servidor técnico-administrativo da UFRJ e militante e dirigente sindical, tendo sido diretor do Sintufrj no fim da década de 1990 e início dos anos 2000.
“Se faz política transformando a segurança pública numa dimensão de medo e ameaça e não algo que tem de ser pensado e solucionado com a participação da sociedade.”
Segurança pública supera todos os itens que envolvem as preocupações da população brasileira. Um dos dados mais recentes, uma pesquisa da Quaest diz que violência e segurança pública chegam a 35% enquanto economia e custo de vida 15% , saúde 14%, corrupção 14% e problemas sociais e pobreza 12%. A população está assustada com o estado da violência nas cidades brasileiras, como isso chegou a esse ponto? Veja a integra da live que está gravada nas redes sociais do Sintufrj e confira alguns trechos:
Notícia e realidade
“Chamo a atenção em primeiro lugar de que contrariando as discussões clássicas das ciências sociais, em particular de viés marxista, a economia não é o principal problema. No tocante a segurança pública a gente percebe o crescimento das cidades e das regiões metropolitanas, o adensamento populacional e claro que os conflitos de interesses são dos mais variados. A imprensa noticia os fatos que envolvem a dinâmica da segurança, mas o que percebemos que o que ocorre cotidianamente é o que realmente assusta.”
“Então essas duas coisas se unem, a violência noticiada e a percepção da segurança. Essas duas coisas somadas geram uma sensação de insegurança que evidentemente para aquele que quer buscar o voto se torna uma problemática a ser respondida e muitas vezes sem o devido conhecimento, sem um estudo abalizado do que eventualmente se pode fazer considerando o território da política. Evidentemente do ponto de vista da atuação dos governantes as soluções nem sempre são mais adequadas do ponto de vista teórico. E está muito mais voltado a responder a sensação de segurança do eleitor que é morador de alguma cidade do país.”
Resistências
“Com a chegada do presidente Lula em 2002 já naquele momento foi criado o Programa Nacional de Segurança com cidadania. Se discutiu a necessidade de criação do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) que sofreu sérias resistências por parte dos governantes dos estado e uma incompreensão no nível dos municípios que sempre acharam que segurança pública é um problema dos estados.”
Retrocesso
“Com o avançar das preocupações isso foi mudando, mas a raiz estava lá desde 2002 com o Programa Nacional de Segurança com cidadania assim como a criação do SUSP e não podemos esquecer que toda essa pauta progressista sofreu variados golpes. Como o que sofreu a presidente Dilma em 2014 e que paralisou uma série de agendas, permitindo inclusive a ascensão de grupos indesejáveis no território da política e que estavam adormecidos no interior de diferentes segmentos políticos como o Centrão e a direita convencional que afloraram num discurso de extrema direita.”
Milícias
“Acaba que a ausência do estado no tocante a políticas públicas para desenvolvimento do emprego, para dar educação, para pensar o sistema de transporte, de moradia digna, abre espaço para fenômenos como esse aqui no Rio de Janeiro que vimos florescer, que são as milícias. Elas passam a ter vigência numa suposta luta contra o tráfico de drogas e que depois passaram a “mimetizar” (imitar) o tráfico de drogas porque isso é um mercado. As milícias querem o dinheiro da mesma forma que o tráfico para prestar serviços e cobrar por serviços prestados.”
Crime organizado
“Chamo atenção que pensar só na crime organizado é pensar na metade do problema. É necessário pensar em toda a esteira que faz com que esse crime organizado possa construir uma base social de atuação e intervenção que lhe confere certa legitimidade dependendo dos contextos.”
Territórios ocupados
“É assustador perceber que esses grupos armados cresceram muito. A ideia que se tem é que do país a gente tem em torno de 34 milhões de pessoas sob a tutela desses grupos e que aqui no Rio de Janeiro é uma quantidade bastante considerável. Na cidade do Rio que beira 10 milhões de pessoas digamos que têm mais de 2 milhões nessa situação.”
Influência na política
“Temos de chamar atenção do país que o que aconteceu no Rio de Janeiro, da Assembleia Legislativa ser tomada por esses esquemas, aonde milicianos estavam em conluio com representantes do Comando Vermelho e que inclusive elegeu um deputado ligado ao Comando Vermelho responsável pelo tráfico de armas isso mostra que há uma parte não muito visível de controle do crime organizado e que impacta a vida cotidiana das pessoas num nível muito maior. Pois atua na esfera pública estabelecendo relações de confiança e influência definindo questões no Executivo. De fato, esses grupos estão hoje na disputa pelas eleições no Rio de Janeiro. A presença do crime organizado está para além das favelas e dos territórios controlados. Então é necessário que a gente tenha medidas de organização das políticas públicas de segurança para atuar e procurar garantir uma intervenção qualificada para garantira a democracia.”
Mortes
A maioria das pessoas que morem por atuação da polícia, cerca de 78%, é constituída de pessoas pretas e pardas com idade de 15 a 29 anos de idade e que vivem em certas regiões da cidade e que são áreas de favela. E pensam que isso é ordem pública!”





