Antônio Carlos da Rocha Alves, 67 anos, é técnico em enfermagem desde 1983 no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF), atualmente no setor de Tomografia. Mas sua história vai além de servidor da UFRJ há 42 anos. No mundo do samba, ele é o Tonho de Rocha Miranda, intérprete, percussionista, compositor e mais recentemente, produtor.  Na sua unidade de trabalho é o Tonho Boca de Cantor. Músico com mais de 600 composições.

Tonho se orgulha de servir ao público na UFRJ, aonde chegou muito jovem e aprendeu muito na sua posição de técnico-administrativo em educação. Só lamenta os problemas que a sua unidade hoje enfrenta. Ele define como socialista por querer um mundo mais igual para todos e isso se reflete nas ações de solidariedade para com os colegas de trabalho. O Sintufrj para Tonho é uma ferramenta de defesa do trabalhador. Se sindicalizou em 1983 e foi coordenador da entidade em 2010.

Carinho e respeito

Foi da turma do HUCFF que ganhou o apelido de Boca de Cantor, por inspiração da amiga Marlene Aparecida, a Marlene Furacão, da Ortopedia. Ela o acompanhou num show e ao vê-lo no palco  gritou: “O meu amigo Boca de Cantor”. Era 1985 e no plantão seguinte, todo o hospital já sabia da história do “Toninho Boca de Cantor”, conta.

Natural de Colégio, filho de mãe baiana e pai pernambucano, Tonho tem a música no sangue, como seu irmão e tios. Com quatro anos, subiu no palco na festa da igreja em Areia Branca, Belfort Rocha, e cantou um samba com a banda que se apresentava. Seu avô, Aurelino Rocha Moita, foi regente e na década de 50 era o maior trompetista da Bahia e um dos maiores do Brasil, registra orgulhoso. “Eu acho que veio daí (minha vocação). Meu avô era compositor de clássicos e valsa. Eu sou compositor de todas as vertentes de samba. Mas também componho outros ritmos. Até hip-hop e axé”, diz.

Conta com orgulho que é afilhado de crisma de Beto Sem Braço, o grande compositor da Império Serrano, autor de inúmeros sambas-enredos, entre os quais “Bum Bum Paticumbum Prugurundum”, que garantiu o título de campeã para a escola em  1982.

Talento e obstinação

Ainda muito jovem passou a frequentar as escolas de samba e a compor para os blocos locais até estrear como compositor de samba-enredo, com seu irmão e outros parceiros, na Unidos de Uraiti, em Colégio, e Unidos da Vila de Santa Tereza, em Rocha Miranda. Com sete amigos fundou o grupo Só Samba, do qual era intérprete. Fez muitos shows em casas noturnas das zonas Norte e Sul do Rio de Janeiro e no interior do Rio e Minas Gerais. Chegou a substituir o Fundo de Quintal em algumas oportunidades. E acompanhou nomes como Elza Soares e  Neguinho da Beija Flor.

“De Rocha Miranda”

Em 1985, completou os versos que faltavam num botequim em Rocha Miranda de uma primeira versão de um samba de Bebeto Di São João com Raimundo Barros Filho. No dia seguinte, foi chamado à gravadora para assinar o contrato. O disco saiu e na autoria de “Cara de Anjo”, nome da composição, constava seu nome, Tonho, ao lado de Bebeto e Raimundo.

No lançamento do disco na Rádio Tropical, Bebeto contou sobre a parceria com um Tonho, em Rocha Miranda. “Acabou a entrevista e eu fui para Colégio. Quando eu cheguei no bar lotado, o pessoal perguntou: ‘Quer dizer que você é de Rocha Miranda?” Aí eu falei com o Bebeto que o pessoal estava chateado. Ele respondeu:  ‘Então acabei de batizar você. Sou teu padrinho do nome artístico: Tonho de Rocha Miranda’, e o assunto foi encerrado”.

Parceiros de fé

Bebeto é autor de versos conhecidos, como “Se gritar pega ladrão” (do samba “Reunião de Bacanas”), com Ary do Cavaco. Tonho, aliás, já gravou essa música com ele. Entre o final da década de 80 e o início de 90, escolas como Mocidade Independente de Inhaúma e o Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de Samba Quilombo desfilaram na Rio Branco com sambas de autoria de Tonho de Rocha Miranda com outros parceiros. Disputou em escolas como Império Serrano e Salgueiro, Portela e Vila Isabel, chegando, em algumas, à semi-final e até à final.

Resistir

Com Nilson Athayde, Tonho gravou um samba político: “Fio da mesma meada”, que tem versos incisivos como Vamos resistir a quem candonga / a quem rasga livros e quebra lápis. Quem faz das seringueiras, cacetete pra nos açoitar. Vamos resistir. Somos fio da mesma meada, patrimônio comum a toda a humanidade. (…) Chegou a hora de acendermos os candeeiros. Pra clarear, iluminar o mundo inteiro e livrar nossas crianças desse imenso cativeiro”, dizem os versos. “Se fosse na década de. 70, os caras mandavam sumir comigo”, acredita.

Na década de 90, seguiram-se mais parcerias até a gravação de um samba só seu, que lhe rendou um carro zerinho: “Ouro da minha mina”. Mas a meta não era o dinheiro: “O sambista de fato, o compositor de fato, nunca põe o dinheiro em primeiro plano. A expectativa dele é saber até onde vai alcançar a obra dele. E é desse caminhar que vai vir dinheiro. Tá entendendo? E esse CD eu consegui vender”, afirma.

Mais produção

Tonho começou, ele mesmo, a produzir sua obra, como a coletânea “Samba da Velha Escola”, com 16 músicas (das quais cantou duas, de sua autoria), que também rendeu shows. Fez várias parcerias e partiu para o CD “Caminhando com a Batucada”, para a qual gravou sambas de sua autoria e dividiu interpretações. Viajou pelo interior dos estados do Sudeste com este trabalho.

Ouça em https://www.suamusica.com.br/antoniocarlosrochaalves

No final doa anos 1990, gravou um samba em homenagem a uma entidade da umbanda chamada “Dona Rosa”, que rendeu várias apresentações em universidades, casas noturnas e no Samba Buraco do Galo, projeto cultural que chegava a reunir de 2.500 pessoas em Oswaldo Cruz. Então foi convidado para uma coletânea que vendeu milhares de cópias. Com isso, chegou a se apresentar numa das comemorações do Dia Nacional do Samba, no palco principal do tradicional reduto de sambistas, com Beth Carvalho.

Alta produção

“Eu sou um compositor que canta. E eu não sou um cantor”, esclarece Tonho. Tanto que ganhou, com outros cinco autores, o enredo de uma escola de samba de Belo Horizonte para o carnaval de 2026 e gravou com a cantora da cidade, Aninha Felipe, um samba de sua autoria: Guerreira Mulher.

No momento, está lançando os cantores Guto Cesário, com a música “Sal Marinho”, que deve sair em dois meses nas plataformas digitais, e Marcelo Toledo, de Gurupi, Tocantis, com músicas de sua autoria e parceiros, coletânea “Trajetória do Sambista Apaixonado”, prevista para breve.

 

Ele também participou de uma outra coletânea: “No quintal do BHZ” (um estúdio em Guadalupe e futura casa shows), esperado para daqui a dois meses, com duas faixas como compositor, sendo uma delas também como intérprete: “Amarra a saia, Maria” e Mulher, o doce mais doce”.

 

Coleção está em todas as plataformas

E a sua coletânea “Nas graças dos Orixás”, composta de 12 músicas feitas com parcerias, já ganhou, em um ano nas plataformas digitais (como Spotify e YouTube), mais de 70 mil visualizações. A festa de lançamento foi no Espaço Cultural do Sintufrj, em maio de 2024 para convidados e parceiros do samba. Agora Tonho planeja um show de apresentação num grande teatro.

Foto: Renan Silva

Tonho da Rocha Miranda conta sua trajetória no mundo do samba

Mais sobre o compositor, intérprete e produtor em

YouTube – https://www.youtube.com/@tonhoderochamirandaoficial6602

Face – https://www.facebook.com/TONHODEROCHAMIRANDASHOW/?locale=pt_BR

 

Nesta segunda-feira, 15 de setembro, o mundo celebra o Dia Internacional da Democracia. A data, instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU), tem como marco a assinatura da Declaração Universal da Democracia em 1997. O Brasil, ao lado de outras 127 nações, firmou o compromisso de zelar pelos princípios fundamentais que sustentam um Estado verdadeiramente democrático.

O documento é claro em seus pilares: “A democracia se funda no primado do direito, bem como no exercício dos direitos humanos. Num estado democrático, ninguém está acima da lei e todos são iguais perante ela.” Além disso, ressalta que o “elemento chave para o exercício da democracia é a realização de eleições livres e justas, a intervalos regulares, permitindo que a vontade do povo seja expressa periodicamente”.

Para nós, brasileiros, a data carrega um significado ainda mais profundo. Ela nos convida a uma reflexão sobre nossa própria história, marcada por longos períodos de autoritarismo e por uma incansável luta popular pela redemocratização. Como bem recorda a iniciativa “Memórias Reveladas”, do Arquivo Nacional, o período da ditadura militar (1964-1985) representou uma grave e violenta ruptura com esses princípios.

Durante 21 anos, a vontade popular foi silenciada, direitos foram suprimidos e a lei foi submetida aos interesses de um regime de exceção. No entanto, a resistência nunca cessou. Nos anos finais da ditadura, o anseio pela retomada da democracia tomou as ruas do país de forma avassaladora, culminando no histórico movimento das “Diretas Já”, em 1984.

Milhões de cidadãos, de todas as classes e matizes ideológicos, uniram suas vozes em comícios gigantescos para exigir o direito fundamental de eleger diretamente o presidente da República.

Um registro histórico poderoso dessa mobilização é a capa do jornal “Espaço Democrático” de 17 de fevereiro de 1984. A edição, cujo acervo pertence ao Arquivo Nacional e está disponível para consulta pública no Sistema de Informações do Arquivo Nacional (Sian), estampava as manchetes das manifestações que se espalhavam pelo Brasil, refletindo a força e a esperança do povo na reconstrução do país.

Relembrar as “Diretas Já” no Dia Internacional da Democracia é fundamental. É um lembrete de que a democracia não é um direito garantido, mas uma construção permanente. Para nós, do Sintufrj, essa luta assume formas concretas e diárias. O mesmo espírito que levou milhões às ruas por eleições diretas é o que nos move hoje na defesa da universidade pública, gratuita e de qualidade.

A luta pela democracia acontece quando brigamos por recomposição salarial justa para todos os servidores, quando defendemos nosso plano de carreira (PCCTAE) de qualquer desmonte, quando denunciamos o sucateamento e os cortes orçamentários que precarizam o trabalho e o serviço prestado à população. Defender a autonomia universitária contra as intervenções e lutar por melhores condições de trabalho nos hospitais universitários é defender um pilar da sociedade democrática. A luta de ontem inspira e fortalece nossos desafios do presente.

Que a memória da luta pela redemocratização nos impulsione a seguir fortalecendo nossa organização sindical, em nossas assembleias e atos, defendendo a cada dia a democracia dentro e fora dos muros da universidade.