Na segunda sessão ordinária do Conselho Universitário deste ano, no dia 26 de fevereiro, os conselheiros comemoraram a retomada do espaço original de realização das reuniões do colegiado máximo da UFRJ, no salão do segundo andar da antiga Reitoria, no edifício Jorge Machado Moreira (JMM).

À esquerda, primeira votação. Ao lado: secretário do Consuni há 29 anos, Ivan comemora volta à tradicional sala de sessões
Palco de lutas históricas e momentos decisivos da vida universitária, a retomada como local das sessões não poderia prescindir de mobilização: os técnicos-administrativos anunciaram o indicativo de greve da Fasubra em busca do cumprimento integral do acordo de greve de 2024; os estudantes realizaram um protesto contra cortes nas bolsas de monitoria que vão prejudicar severamente muitos deles (veja box a seguir).
Não prescindiu de mobilização mas também de emoção, como apontou o reitor Roberto Medronho ao abrir a sessão, retornando “à casa onde há muitos anos o conselho se reunia e feliz por voltar a se reunir daqui para frente” e apontando a emoção do secretário do colegiado Ivan Hidalgo.
“Senti emoção porque trabalhei 50 anos lá”, contou Ivan, que completa, em 2 de junho, 55 anos de UFRJ. Quando chegou à universidade, em 1971, o Conselho já funcionava naquela sala desde 1969 (antes a Reitoria era na Praia Vermelha). Entrou como substituto de outro secretário, Ivan Rodrigues, que se aposentou em 1977, quando ele passou a ser o secretário (há 29 anos, portanto).
História
O espaço revitalizado já havia sido utilizado em dezembro, na última Plenária de Decanos e Diretores de 2025, como uma espécie de teste. Mas ficou sem sediar o Consuni por quase seis anos.
Em 2020 as reuniões presenciais que se realizavam na tradicional sala desde o fim da década de 1960, tornaram-se remotas em função da pandemia. Só foram retomadas de forma presencial em maio de 2022, porém em outros auditórios, como o do Parque Tecnológico e, depois, o da Escola de Química.
Assim como o Consuni, setores da Administração Central também deixaram o JMM, alvo de incêndios (em 2016 e 2021) e deterioração da infraestrutura por dificuldades orçamentárias. A transferência da Reitoria para o Parque Tecnológico, foi marcada por uma solenidade em abril de 2023.
O estudante Henderson Ramon, representante do DCE, também comemorou a volta do Consuni ao JMM. Mas lembrou que o prédio tem luta histórica para se manter de pé e funcionando. “Ter essa sessão acontecendo aqui também chama a atenção para as dificuldades orçamentárias que a Universidade vive e que aparecem (quando estamos) andando pelos corredores”, lamentou, informando que o prédio está sem água no trecho onde ficam as salas de aula.
Reivindicações no Consuni

André Saldanha, em nome dos técnicos administrativos, informou sobre a greve pelo não cumprimento do acordo de greve estabelecido em 2024, e que no dia 2 de março o Comando Nacional de Greve será instituído pela Fasubra em Brasília. Explicou que, entre os pontos que não foram respeitados pelo governo é sobre o Reconhecimento de Saberes e Competências, RSC, cuja regulamentação deveria ser tal qual foi definido na Comissão Nacional de Supervisão de Carreira, abrangendo toda categoria, representando uma evolução na Carreira, mas cujo texto acabou desfigurado no projeto de lei apresentado pelo governo, aprovado às pressas na Câmara e enviado ao Senado.
“Não é o único ponto que foi desrespeitado pelo governo. A gente tem a (questão da) regulamentação das 30 horas de trabalho, a racionalização dos cargos, que também não vem sendo discutido como deveria, e a aceleração para aposentados e pensionistas. Nós esperamos que, principalmente num ano tão estratégico, a gente tenha uma greve curta e que ela renda o cumprimento do acordo que foi assinado em 2024”, disse o conselheiro TAE.
Homenagem
Salviano lembrou ainda “uma grande figura” da história cultural carioca: Nelson Rodrigues Filho, que faleceu dia 25 os 79 anos. Produtor cultural e escritor, fundou o bloco Barbas. “Nelson lutou contra a ditadura. Foi preso e torturado. Como seu pai, Nelson Rodrigues, tinha muito conhecimento, conseguiu, na época, que o filho fosse solto, mas ele disse que só sairia dali com os outros. E com isso ele ficou sete anos preso. Nelsinho também teve o bar do Barbas, que era um grande ponto de encontro cultural, frequentado por Chico Buarque, Paulinho da Viola, Martinho da Vila, enfim, grandes figuras da nossa cultura, e assim que o bar terminou, fundou o bloco do Barbas, que acabou de fazer 40 anos. Então, ele deixa um legado para a cultura carioca e eu queria fazer essa a menção aqui dessa grande figura”, contou o servidor que toca na bateria do bloco.
Madeira e a questão ambiental
O Conselheiro Milton Maceira parabenizou o ingresso de alunos do interior, estudantes negros, de periferia, “pela luta de resistência e que procuram a Universidade Pública para interagir no processo de transformação de si próprio e da sociedade”.
Madeira chamou atenção também para a questão ambiental: “Estamos com várias ilhas de lixo plástico no Oceano Índico, no Atlântico, e estamos convivendo isso numa normalidade muito estranha. A gente está à beira de uma mudança climática severa, os glaciares se desfazendo e nós continuamos vivendo a nossa vida cotidiana sem dar atenção devida a essas questões. Eu acho que a gente precisa retomar essa discussão na sociedade para que a gente entenda que, apesar do afastamento humano da natureza, a gente não tem nenhum outro planeta. As Big Techs que vendem a ilusão de que a inteligência artificial vai salvar o planeta, amparadas da ótica do capitalismo. O campo magnético do planeta tem mudado também e se tem falado um pouco sobre isso. A tecnologia será destruída muito rapidamente se o planeta passar por esse processo. Então não terá inteligência artificial, não terá nada disso. Nós estamos vivos nesse planeta, a gente tem que lutar por ele”.
Corte de bolsas não é a resposta

A conselheira Arthura Annastásiya (na foto, à direita) criticou os cortes nas bolsas de monitoria que susta a possibilidade de muitos estudantes seguirem seu curso. Apesar de entender a origem da redução do orçamento. Ele apontou também o baixo valor das bolsas (R$700): “Precisamos de mais para sobreviver”. E concluiu: “Cortar assistência como forma de repassar o corte para a frente não é a melhor maneira”.
Isadora Pereira (ao lado de Henderson Ranon, na foto seguinte) cobrou o fato de que decisões como o corte de bolsas não passem por amplo debate com a comunidade acadêmica e entidades estudantis. “Nós sabemos que é pouco (o recurso), inclusive, somos sempre os primeiros a lutar contra isso, porque é claro que é difícil administrar o recurso escasso. Mas a partir disso, como que vai ser destinado, como que vai ser distribuído, é o que a gente precisa ter mais transparente, mais participação.
Mais de 200 bolsas cortadas
Renan Gabriel lembrou que as bolsas não são só um instrumento de permanência: “É um projeto muito importante e o primeiro passo para estudantes que querem ser docentes, por exemplo. A gente teve uma redução de 16% do programa de monitoria dessa universidade, o que é muito sério. Foram mais de 200 bolsas, cortadas de um ano para o outro”.
Segundo ele, há unidades como o Instituto de Matemática que perderam quase 30 bolsas. “A minha unidade perdeu 10, é um dos maiores programas de monitoria de unidade da Faculdade Nacional de Direito e eu sei como é importante esse instrumento para que a gente consiga ter excelência acadêmica nessa universidade. A gente entende o cenário, estrangulamento orçamentário, mas cortar de um programa tão importante e essencial dentro da UFRJ definitivamente não é a resposta”, concluiu o rapaz.
A Reitoria explicou que a origem do redimensionamento das bolas foi de fato a questão dos cortes orçamentários e que a luta coletiva, não só dos estudantes, para aumentar o orçamento da Universidade. O reitor informou que depois da sessão se reuniria com os estudantes para discutir a respeito.
Palco de luta e resistência

Acima, em 2019: na sessão lotada de estudantes e trabalhadores, o conselho rejeitou, por unanimidade o Future-se, a proposta do governo bolsonaro que acabava com o caráter público das universidades federais.
Abaixo, em 1998: lideranças sindicais, estudantis e da sociedade civil se manifestam contra a intervenção na UFRJ.

