Sintufrj presente no ato político-cultural e de denúncia que ocupou Copacabana no domingo
Fotos: Renan Silva
Mulheres negras de todas as idades, de diversas frentes e organizações da sociedade brasileira, ativistas sindicais e de movimentos sociais, vindas em caravanas de 70 municípios, inundaram, no domingo, 27 de julho, com suas vestes coloridas, batuques e cantos de protesto a Avenida Atlântica, em Copacabana. Era a XI Marcha das Mulheres Negras do Rio de Janeiro rumo a Brasília: contra o racismo, por justiça e o bem viver. O Sintufrj, assim como em outras edições do ato político-cultural e de denúncia, estava presente.
À frente da marcha, meninas e jovens negras representando a continuidade e o futuro do movimento, carregavam a enorme faixa de abertura do evento. Logo atrás, vinham as mães que perderam seus filhos pelas mãos da polícia do governo do Estado do Rio. Ao longo do cortejo, líderes quilombolas, indígenas e mulheres negras organizadas em irmandades religiosas se misturavam aos coletivos de hip-hop, jongo e outras manifestações de dança, batuques e músicas cantadas à capela por vozeirões femininos.
O clássico, imortalizado na voz de Elza Soares, “A carne negra é a mais barata do mercado” teve coro de todas as manifestantes. A tradição foi mantida: os homens ficaram do lado de fora da marcha. Havia muitos companheiros militantes prestando sua solidariedade e apoio às companheiras em marcha.
Sintufrj presente!
“A importância desta marcha é dar visibilidade às mulheres negras que lutam por justiça, reparação e uma vida com dignidade e igualdade de direitos. É uma luta diária pelo seu espaço na sociedade. É uma emoção muito grande fazer parte disso, estar junto de tantas mulheres negras reunidas com os mesmos objetivos. Infelizmente essa luta ainda vai continuar por muito tempo. Mas somos lutadoras, somos guerreiras!, afirmou Selene Vaz, coordenadora de Aposentados e Pensionistas do Sintufrj, integrante dos GTs Antirracista e de Mulheres da entidade.
Norma Santiago, coordenadora de Políticas Sociais e dos grupos de trabalho Antirracista e de Mulheres do Sintufrj, festejou mais um ano de realização da marcha: “Essa caminhada que reúne mulheres negras de vários movimentos políticos e culturais é maravilhoso! São movimentos que nos fortalecem, porque mostram que nós, mulheres negras, estivemos e estamos em vários lugares demonstrando a nossa força e representatividade. Reverencio todas as mulheres negras que fizeram história no Brasil e no mundo, e que elas nos fortaleçam para seguirmos em frente nesta luta”.
Solanne Alves, terapeuta ocupacional, faz parte da equipe que atua no Núcleo de Inclusão, Diversidade, Sensibilidade e Ações Afirmativas, do Instituto de Psiquiatria da UFRJ (Ipub). “Estar na marcha tem tudo a ver com o meu cotidiano de trabalho na universidade. Somos uma equipe de mulheres negras, nos reunimos semanalmente para avaliarmos as demandas que chegam para atendimento, temos um grupo de estudos e de discussão temática”, informou.
Maria Soares da Silva Lins, do Museu Nacional, a Branca, participava pela terceira vez da marcha representando o povo indígena do qual faz parte. “Este é um ato que nos enche de energia positiva para seguir na luta por conquista de respeito”, disse a técnica-administrativa. Também estavam presentes junto à faixa do Sintufrj as companheiras Maria José da Silva, a Zezé do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, Sônia Leite, da Escola de Música, Alzira Trindade, da Prefeitura Universitária, Marisa Araújo, da Editora UFRJ, a aposentada Yvone Gabriel e uma das precursoras da luta antirracista na UFRJ, Luciene Lacerda. Os companheiros coordenadores do sindicato (no apoio logístico) Luciano Nascimento, José Carlos Xavier, Hilem Moisés, e o militante de base, Carlos Pereira.
Homenagens
“Nossos passos vem de longe”, informava uma faixa do Fórum Estadual das Mulheres Negras, responsável pela organização da marcha com apoio das secretarias estadual e municipal de Promoção Social e Direitos Humanos e de Mulheres, e entidades do movimento negro organizado. Em seguida, dezenas de pirulitos (cartazes de mão) foram cuidadosamente colocados sobre o asfalto com fotos e nomes de mulheres que fizeram história na luta por liberdade, contra o racismo e por igualdade racial. Uma das falas de lideranças de coletivos registrou: “A luta das mulheres negras por direitos é antiga e continua. Desde o tempo da escravização, fomos líderes das revoltas, fundadoras de quilombos e defensora da liberdade”.
A deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ) foi saudada e reverenciada como griô do Rio de Janeiro, por abrir os caminhos trilhados hoje pelos movimentos que constroem as lutas antirracistas. “Seguimos firmes em marcha permanente por um país que respeite e valorize as mulheres negras da favela, do campo, das comunidades tradicionais e periféricas. Porque enquanto houver racismo, não haverá democracia”, frisou. A parlamentar também alertou sobre a conjuntura atual: “a democracia brasileira está sendo violentada pela política de Trump (presidente dos Estados Unidos). Temos que pôr para quebrar, ir às ruas. Porque querem pegar na mão grande nossos recursos, o nosso pix. A economia cresce quando há investimentos na mulher preta de luta e de fé. A força do país é a negrada”.
A ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, sua mãe e a sobrinha participaram da marcha até o encerramento. “Estamos aqui para dizer que as mulheres negras são donas de seu protagonismo, seus espaços. E a cada ano está marcha fica mais lotada. Marielle Franco participou pela última vez em 2017 e a gente sabe o que estar de todos os lados da trincheira e não podíamos deixar de estar aqui”. Nesse dia, a família da vereadora assassinada participaria também de uma missa em memória dee Marielle. “Hoje a minha mãe estaria completando 46 anos de vida e boa parte dessa vida foi dedicada às lutas que nos unem. Então estar aqui é muito simbólico pra gente, reafirma a nossa luta e a luta do Instituto Marielle Franco pelas mulheres negras”, disse Luyara Franco.
“Nós estamos ligadas ao orçamento secreto, roubado e a todas às políticas escrotas”, lembrou do carro de som uma liderança. “Sem anistia!”, a marcha respondeu.
Várias outras parlamentares negras estavam presentes à marcha e se manifestaram. A deputada do PSol, Renata Souza, estava acompanhada: “Nós mulheres pretas pegamos o microfone muito à vontade, e hoje estou com a minha filha de 10 meses, que ano passado estava na marcha, mas dentro da minha barriga”. Ela reivindicou a construção de uma Casa de Parto para as mulheres do Complexo de Favelas da Maré, onde vivem 140 mil pessoas. Renata nasceu e viveu no local.
Presenças ilustres
As escritoras e professoras Conceição Evaristo e Ana Maria Gonçalves, autora de “Um defeito de cor” e a primeira mulher negra eleita para a Academia Brasileira de Letras, com suas presenças tornaram a marcha ainda mais significante.





