Em uma roda de conversa no Salão Nobre do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, na manhã desta segunda-feira, dia 30, integrantes da Comissão de Prevenção e Combate ao Assédio Moral e Sexual do IFCS apresentaram o novo protocolo de atuação (que ainda será submetido à Congregação) para institucionalizar as principais orientações para a prevenção e combate destas práticas na unidade.
Os coordenadores do Sintufrj Norma Santiago, de Políticas Sociais, e José Carlos Xavier, de Política Sindical, junto com as integrantes do Departamento de Enfrentamento ao Assédio Moral e Conflitos no Trabalho, as assistentes sociais Anaí Estrela e Aline Silveira, representaram a entidade. O evento foi prestigiado por representantes de outras unidades, como o IESC e instituições, como UERJ.
Impactos do programa federal
Ouvidora da UFRJ de 2022 a 2025, Luzia Araújo fez um resgate histórico do sofrimento imposto aos trabalhadores escravizados até os dias de hoje: “Com o capitalismo isso não mudou”, disse ela, apontando que ainda há casos de humilhação no ambiente de trabalho e os impactos da violência que se estendem a vida pessoal, como estresses, transtorno e até suicídio.
Luzia apresentou os impactos do decreto nº 12.122 de 2024, que Institui o Programa Federal de Prevenção e Enfrentamento do Assédio e da Discriminação, no âmbito da administração pública federal. Ela destacou o papel da instituição no acolhimento das pessoas, a garantia do sigilo, a efetivação da denúncia se for do desejo do trabalhador. Ela apontou a importância de as pessoas que veem um caso destes acontecer de não se calarem. A ouvidora listou ainda as muitas ações de sensibilização, campanhas, cartilhas e outras iniciativas da ouvidoria nos últimos anos.
Enfrentando o problema
O diretor do IFCS, Fernando Santoro, explicou que esta é uma das três comissões de atendimento à comunidade do IFCS criadas pela direção e a Congregação – as outras são Comissão Permanente de Prevenção e Combate ao Racismo e às Discriminações no IFCS e a Comissão de Acessibilidade – destacando que é importante que sejam compostas pela própria comunidade. “A gente está construindo um protocolo de ação que deverá ser aprovado pela congregação para enfrentar o problema de assédio moral e sexual e, principalmente, por meio da informação, evitar que as situações aconteçam”.
A roda de conversa, mediada por Andréa Gil, professora do Departamento de Ciência Política e integrante da comissão. A presidente, Aparecida Moraes, do Departamento de Sociologia, que apontou objetivos e protocolos da comissão.
Segundo Aparecida Moraes, o foco prioritário é as pessoas buscarem apoio e acolhimento. O tripé deste trabalho, aliás, é acolhimento, escuta e o bem-estar das pessoas.
O protocolo define o escopo da comissão, objetivos, procedimentos e modos de acolhimento. E o que cabe à unidade dentro do que dispõe o decreto que institui o programa de prevenção e enfrentamento do assédio na administração federal. “Esse é um trabalho coletivo”, faz questão de dizer a presidente, explicando que o objetivo do evento foi abrir debate sobre o protocola para a produção de uma versão final que será encaminhada à direção para aprovação na Congregação da Unidade.
Prevenção e combate
“Todas as pessoas têm que ser tratadas com cortesia e respeito” e “compromisso com justiça e igualdade”, são alguns dos elementos apontados pela presidente no protocolo que aponta ações como a efetivação de um canal aberto de informação e denúncia a toda comunidade. “A comissão recebe a todos que nos dirigem um pedido de ajuda”, diz ela, explicando que está também no seu escopo, direcionar esforços para a prevenção e o monitoramento de segmentos específicos mais vulneráveis, trabalhar em conjunto com as outras comissões da unidade e resguardar confidencialidade e sigilo.
Embora fundamental para prevenção e combate ao assédio, a comissão não tem possiblidade de apurar ou solucionar casos, segundo explicou.
Violência de gênero
Depois de Aparecida, Carolina Araújo, professora do Departamento de Filosofia, abordou o tema “Desigualdades e violência de gênero: o caso da Filosofia”. Ela abordou a questão sobre a ótica da carreira acadêmica, explicou que os dados falam por si no que toca a perda de mulheres das cadeiras da graduação até o doutorado e a carreira docentes : os homens têm o dobro de chances das mulheres de fazer todo esse trajeto. Situação de desigualdades que se manifesta ainda mais em cursos como os das engenharias. Ela apresentou ainda pesquisa com mulheres desta área acadêmica que mostra que 8% relataram violência de gênero, 45% foram silenciadas, 29% tiveram suas ideias apropriadas, 33% relataram desqualificação de nível, 37% relataram assédio moral e 36%, sexual.
Busca ativa
O professor do Departamento de Antropologia, Jean-François Véran, abordou o tema “Detecção ativa de casos de assédio: experiências e propostas a partir das Ciências Sociais aplicadas”. Segundo explica há uma diferença grande entre o número de notificações de caso de violência e a realidade e que a pesquisa de vitimização pode diminuir este número. Ele questiona como t0ornar visível o problema e sugere uma busca ativa das pessoas que nunca falam.
Sintufrj integrado na luta
Fotos: Renan Silva

A presidente da comissão, Aparecida (sentada) ao lado da representação do Sintufrj: Aline, José Carlos, Anaí e Norma
Anaí Estrela contou que, em 2022 integrou a coordenação de Políticas Sociais da entidade e passou a entender as demandas de assédio moral e conflito (segundo ela é preciso separar os dois casos). E que agora, com a criação do departamento dedicado ao tema, ela atua como mediadora, acolhendo o técnico-administrativo e buscando a Ouvidoria, a Divisão de Atenção às Relações de Trabalho (DART) da Pró-Reitoria de Pessoal, e a Coordenação de Relações Institucionais. “A gente precisa acolher os servidores. E este departamento está pronto para somar”, disse ela, elogiando a iniciativa do IFCS.
A assistente social Aline conta que trabalha na Coordenação de Políticas de Saúde e do Trabalhador, que recebe também demandas importantes, e nessa caminhada, trocando ideias com coordenadores do Sindicato, e diante da intenção da entidade de dar visibilidade a questão do assédio e do conflito, atendeu ao convite para somar iniciativas.
A coordenadora Norma Santiago questionou o caso do servidor que adoece ao sofrer assédio e que cai num protocolo, perguntando se ele precisa passar pelo mecanismo de permuta e se esse modelo burocrático pode ser resolvido. “E o que acontece com o chefe que causa todo esse sofrimento? Geralmente o servidor é transferido e o chefe continua assediando”, lamentou. Ela convidou os participantes para a reunião (que será híbrida), do GT Mulher do Sintufrj dia 10 de julho.
O coordenador José Carlos relatou o caso de um conhecido submetido a situação de assédio que ele levou ao Sindicato e hoje está sendo assessorado. “Acho que temos que olhar para os colegas no setor . Hoje este colega está consegui resolver a situação. Temos que buscar a pessoa que está no anonimato e ajudá-la a refletir sobre sua situação”.
“Nós precisamos enfrentar esse assunto”
A representantes técnico-administrativa na comissão, da Secretaria de Graduação, Sônia Reis abordou o tema “Prevenção e divulgação de informações junto ao corpo técnico e administrativo do IFCS” .
Segundo ela, é um prazer trabalhar na Comissão. “Amanhã, tanto eu quanto a Ana Tereza, a outra representante dos técnicos na Comissão, fazemos 38 anos de UFRJ. E nessa caminhada, nós presenciamos e sofremos assédio. Agora, ainda que recente, ainda que no início, nós termos comissões que não só combatem, mas que previnem, que conscientizem. Que a gente tenha a coragem de conversar sobre esse assunto, de cortar na carne, porque não é fácil, é um assunto que causa muita dor, muito sofrimento. Então, para mim, é revigorante”, disse ela.

Sônia (de camisa listrada) ao lado dos demais integrantes da comissão.
Não somos o castelo da Cinderela
“Nós não somos um castelo da cinderela e aqui acontecem casos terríveis de assédio que causam muito sofrimento às pessoas. Então, o pouco que eu puder ajudar traz satisfação”, conclui..
As estudantes de graduação Vitoria Prado, Myllena Marques e , Isabella Marques, abordaram junto a Prevenção e divulgação de informações junto aos discentes do IFCS, com vistas a tornar a comunidade acadêmica um lugar mais asseguro. Elas reconhecem a importância do protocolo mas esperam que o esforço se estenda ais estudantes e terceirizados.

O diretor do IFCS, Fernando Santoro (de vermelho, à esquerda) observa a explanação de Luzia Araújo