Tudo aumentou. A gente sente no bolso e as estatísticas confirmam. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por exemplo, divulgou, em 27 de abril, a prévia da inflação daquele mês, que acelerou para 1,73%, a maior variação mensal do indicador desde fevereiro de 2003 (2,19%). Também foi a maior para um mês de abril desde 1995 (1,95%). O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) nos 15 primeiros dias de abril foi de 4,31%.

Resultado influenciado, principalmente, pelo aumento no preço da gasolina (7,51%), reflexo do reajuste no preço médio do combustível nas refinarias, e por pressões inflacionárias por causa da alta do petróleo no mercado internacional, em consequência do choque de oferta provocado pela guerra na Ucrânia. O preço dos alimentos também está à mercê das variações internacionais.

Efeitos evitáveis

A população sempre sofre os efeitos de qualquer política econômica, para o bem ou para o mal, afirma o professor do Instituto de Economia (IE) da UFRJ João Sicsú. Porém, segundo ele, embora haja uma inflação internacional do petróleo e dos alimentos, o Brasil poderia se defender com políticas internas que garantissem certa autonomia diante dessa inflação internacional. Só que o governo foi no sentido oposto.

Sicsú foi diretor de Políticas e Estudos Macroeconômicos do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea), entre 2007 e 2011, e integra o Observatório do Banco Central, grupo de pesquisa sediado no Instituto de Economia da UFRJ.

Inflação generalizada

“Os preços atuais dos alimentos e combustíveis são a origem de uma inflação que a gente está vivendo agora”, observa o especialista. Mas na verdade, explica, “está havendo elevação de quase todos os preços da economia simplesmente porque os combustíveis e os alimentos contaminam todo o resto da economia na cadeia de preços. É uma inflação generalizada”.

O que fazer

De acordo com Sicsú, seria preciso, por exemplo, que a Petrobras tivesse uma política de acompanhamento e controle dos preços dos combustíveis para evitar que a cada aumento do petróleo no mercado internacional a gasolina e seus derivados subissem também no Brasil.

Já no caso dos alimentos, seria preciso mudar completamente a política econômica do governo para que o país voltasse a ter estoques reguladores de alimentos. De forma que, quando o preço começasse a subir, disponibilizasse o estoque, e quando o preço caísse, voltasse a fazer o estoque. Com preços internacionalizados, portanto, são necessárias políticas para garantir a autonomia nacional.

No entanto, diz o especialista, o governo Bolsonaro fez o caminho contrário ao vincular totalmente o preço da gasolina às variações internacionais do petróleo e abandonar a ideia de estoques reguladores.

“Sem estoques reguladores é impossível manter preços de alimentos estáveis. O Brasil poderia se defender, ainda que não totalmente, dessa variação. Mas está totalmente conectado às variações internacionais de preços, com todos os prejuízos que esta política pode trazer”, afirma Sicsú.

Aumento de juros

só enfraquece

A política do Banco Central de aumento de juros para conter preços não é eficaz, avalia Sicsú, e leva sempre a um enfraquecimento da economia: “Eu penso que o combate à inflação não se faz com (ou através da) elevação de juros, porque isso causa um efeito direto sobre o lado real da economia – ‘leva a uma contração na produção e no investimento (do produto)’, explica –. Exemplo, se uma empresa só consegue produzir mais se tomar empréstimo, os produtos se tornam mais caros.”

Ele acha estranho alguém dizer que se eleva juros para conter inflação. “A gente viu que as principais fontes (do aumento do custo de vida) são o preço internacional do petróleo e dos alimentos. Como a elevação da taxa de juros pelo Banco Central do Brasil vai combater a elevação de preços? A maior parte dos alimentos está vindo com preço internacional. Então, não vejo como a política de juros pode combater a inflação”, frisa o professor.

Outra forma de

enfrentar a inflação

Se os juros altos impedem o desenvolvimento da economia real e não contêm a elevação de preços, é preciso conter a inflação de outra forma. A fórmula proposta por Sicsú é simples:

“Com uma política de geração de investimentos, de estímulo ao consumo e de geração de emprego. Porque é necessário que a gente tenha juros baixos para que a economia volte a ter estímulo para o crescimento.”

João Sicsú espera que daqui a dois anos (quando muda a direção do BC) se resolva de fato baixar a taxa de juros, aumentar a liquidez da economia e o investimento, trabalhando de forma coordenada com o Ministério da Fazenda (que este seja reorganizado), da Previdência e do Trabalho, com juros baixos, investimentos públicos e estímulos aos privados. “É disso que precisamos daqui para a frente. Mas será um caminho longo”, acredita o economista.

Para chegar lá, ele aponta que, primeiro, é preciso derrotar as políticas que levam à atual estagnação (da economia) e à inflação. “Depois temos que ter políticas no sentido oposto, que levem o Brasil ao desenvolvimento. Não só da economia, mas no sentido mais amplo da palavra”, conclui.