O Conselho Universitário da UFRJ (Consuni) aprovou, por unanimidade e aclamação,  em sessão dia 10 de setembro, a concessão do título de Doutora Honoris Causa à Adélia Pereira Sampaio, cineasta negra pioneira no país.

“A trajetória de Adélia Pereira Sampaio evidencia contribuição singular para a cinematografia e para a cultura brasileira, tanto pelo caráter pioneiro de sua atuação quanto pela relevância de sua produção artística, pela circulação de sua obra, pela repercussão acadêmica alcançada por sua produção e pela participação continuada na construção de novas possibilidades de representação no audiovisual nacional”, defendeu Gilda Alvarenga, relatora do processo, da Comissão de Ensino Títulos (CET).

A proposta foi da Escola de Comunicação, aprovada na congregação e no Conselho de Coordenação do CFCH.

Como lembra Gilda, representante técnico-administrativa no Consuni, um dos marcos centrais da trajetória da cineasta, roteirista e produtora de 81 anos, é o longa-metragem Amor Maldito, de 1984, pelo qual se tornou a primeira mulher preta a dirigir um longa-metragem de ficção no Brasil.

A obra, lembra ela,  possui relevância não apenas pelo pioneirismo de sua realização, mas também pela temática, ao apresentar uma relação homoafetiva entre duas mulheres em período marcado pela censura e por fortes restrições à circulação de determinadas representações sociais e culturais. A produção enfrentou obstáculos relacionados à censura e ao mercado cinematográfico.

“Essa mulher é um exemplo de luta, é um exemplo de obstinação no cinema e ela está com oitenta e poucos anos e continua atuando, continua no set de gravação e é realmente uma heroína do cinema brasileiro que não pode ser esquecida e tem sido evidenciada muito nos cursos de graduação e pós-graduação do Brasil afora”, disse Gilda.

Ela concluiu destacando um dado nada louvável, apontado no memorial apresentado pela Escola de Comunicação: dos 366 títulos de doutor Honores Causa concedidos pela UFRJ até abril de 2026, apenas quatro foram destinadas a mulheres pretas e pardas ou indígenas. “Isso é um dado muito significativo para que a gente pense qual é a universidade que a gente deseja para esse novo século”.

Para o professor Joaquim Martins, o Conselho Universitário tem também que perceber que existem outras pessoas negras, não só na área artística, mas na área científica, médica, da engenharia, que não foram devidamente reconhecidas, destacando a importância do reconhecimento “de uma pessoa como ela, não só por ser mulher, não só por ser negra, é também por essa mácula que nós temos na história brasileira e que a universidade, enquanto local de transformação, de respeito à diversidade e a tudo que a sociedade brasileira produz, deve reconhecer não só ela, mas todos os outros”.

Visibilidade das pessoas pretas

A seguir, trechos do relato de Gilda sobre a pioneira Adélia Sampaio

Cineasta, produtora e roteirista, Adélia Sampaio iniciou sua trajetória profissional no ambiente cinematográfico carioca, tendo desempenhado diferentes funções na Difilm, produtora vinculada ao Cinema Novo, onde atuou como maquiadora, continuísta, câmera e montadora.

A experiência adquirida nas diferentes etapas da realização cinematográfica contribuiu para sua formação como diretora, posição que posteriormente assumiria de maneira pioneira no cinema brasileiro.

Sua trajetória profissional deve ser compreendida também no contexto das barreiras históricas de gênero e raça existentes no campo audiovisual brasileiro.

Ao ocupar funções técnicas e, posteriormente, assumir a direção cinematográfica, Adélia Sampaio ampliou os espaços de participação das mulheres pretas em um setor no qual as posições de autoria e direção eram predominantemente ocupadas por homens brancos.

(,,,) A dimensão pioneira de sua atuação, entretanto, antecede Amor Maldito.

Em Parceiros da Aventura, Adélia Sampaio buscou constituir um elenco majoritariamente negro, ampliando a presença de pessoas pretas na representação cinematográfica e enfrentando padrões de exclusão que caracterizavam o audiovisual brasileiro.

A iniciativa revela uma preocupação vanguardista com a representação racial e com a ocupação de espaços de visibilidade por pessoas pretas, caracterizando uma ação concreta no campo da prática antirracista no audiovisual.

A produção subsequente da cineasta também alcançou espaços relevantes de circulação.

O memorial relaciona reconhecimentos e homenagens à cineasta, a inserção acadêmica do seu trabalho

(,,,) Sua contribuição, portanto, não se limita à realização de obras cinematográficas. A trajetória de Adélia Sampaio representa uma intervenção relevante nas estruturas de produção e representação do cinema brasileiro, especialmente no que se refere à presença de mulheres pretas em posições de autoria e criação e à construção de narrativas protagonizadas por pessoas pretas. A importância de sua obra também se evidencia pela permanência de seu cinema nos espaços de formação, pesquisa e difusão cultural.

(…) O nome e a trajetória da cineasta passaram a operar como referência para a promoção, circulação e reconhecimento da produção cinematográfica negra. (…) A contribuição de Adélia Sampaio ultrapassou a esfera de sua própria filmografia, alcançando a criação de espaços destinados à valorização e à difusão de outras produções de profissionais pretos no audiovisual.

A relevância cultural desse percurso, portanto, não decorre apenas do pioneirismo associado a uma realização cinematográfica específica. Ela resulta da combinação

entre produção artística, pioneirismo, circulação da obra, permanência no debate acadêmico, reconhecimento institucional e capacidade de inspirar iniciativas de formação, preservação e difusão da cultura cinematográfica negra.