Ato invoca o direito soberano de o país decidir o seu próprio destino num repúdio à interferência imperialista nos assuntos internos do país

Às vésperas do inédito julgamento pelo Supremo Tribunal Federal (STF) de tentativa de golpe de Estado por um ex-presidente, Jair Bolsonaro, e integrantes das Forças Armadas, mais de 170 entidades da sociedade civil promoveram um vigoroso ato unificado em defesa da soberania e da democracia. A mobilização no Clube de Engenharia do Brasil, no centro do Rio do Janeiro, reuniu mais de 500 pessoas e lotou os auditórios de cinco andares do prédio.

“Reunimo-nos aqui para afirmar, alto e claro, que o Brasil não aceita tutelas, não aceita imposições externas e não abrirá mão de seu direito soberano de decidir o próprio destino”, declarou na abertura do evento o presidente do Clube de Engenharia, Francis Bogossian. E finalizou: “A soberania não é bandeira de um partido ou governo. É bandeira do povo brasileiro. É dever de todos nós, sejamos trabalhadores, empresários, estudantes, militares, cientistas, artistas, erguer-se contra qualquer tentativa de submissão.”

O ato pela soberania nacional é uma resposta às interferências do presidente dos EUA, Donald Trump, que ameaçam a economia, a democracia e as instituições brasileiras, principalmente o Poder Judiciário, e sua tentativa de chantagem para livrar Bolsonaro da cadeia. Sem anistia para golpistas, a manutenção do mandato de deputado federal Glauber Braga (PSOL-RJ) e às ruas no 7 de setembro também foram pautas defendidas pelos participantes.

Segundo o presidente da CUT-Rio, Sandro Cezar, o ato foi uma demonstração de força da sociedade civil pela soberania, pela democracia e contra a impunidade.

“Esse ato foi histórico na defesa da soberania nacional. Estavam juntas entidades que sempre defenderam a democracia, a soberania nacional e o povo brasileiro, Esse ato se insere em um contexto importantíssimo para a história do Brasil, no momento que pela primeira vez os generais de exército e os golpistas serão levados aos tribunais para serem julgados. Todos os golpes do Brasil terminaram em pizza. Os torturados nunca foram honrados do Brasil. Os vitimados pela ditadura nunca foram respeitados. Desta vez será diferente. É simbólico o que vai acontecendo aqui no Brasil. É simbólico demais o que está acontecendo nesse momento”,  disse ao Jornal do Sintufrj, Sandro Cezar.

Sandro Cezar afirmou que o simbolismo do ato é ainda maior diante do tarifaço de Donald Trump numa tentativa de bloqueio econômico para interferir nos assuntos internos do Brasil e para interferir nas decisões da justiça brasileira. “Queremos nossas decisões respeitadas. É importantíssimo que a gente possa construir junto com todo o povo brasileiro um 7 de setembro pujante, forte, para que a gente possa demonstrar que o povo brasileiro está unido na defesa da soberania do Brasil e no direito do nosso povo”, sustentou.

Para o ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu, o país pode se transformar num país soberano, democrático e justo, mas são necessárias uma revolução política e social e uma profunda reforma tributária e do sistema financeiro.

“O que amarra o Brasil é concentração de renda, juros altos e a estrutura tributária que expropria o povo. Vamos fazer uma revolução política e social se formos capazes de mudar o Congresso Nacional. E é preciso retomar as ruas, daí a importância do 7 de setembro e desse ato”, pontuou.

José Dirceu criticou as elites por não defenderem o país, afirmou que a família Bolsonaro, a extrema direita brasileira, governadores e setores do empresariado apoiam a intervenção americana porque objetivam destruir a democracia brasileira e submeter o Brasil.

Dirceu anunciou que em São Paulo as ruas serão tomadas no dia 7 e que em 15 de setembro será lançada uma ampla aliança como a do Rio de Janeiro, chamada Direito Já, com 300 entidades.

“É o começo de uma longa caminhada. Sem isso não há como sustentar a política de defesa do interesse nacional que o presidente Lula está aplicando corajosamente de articulação dos Brics, do Sul Global, do México, da Colômbia, do Uruguai, para se defender perante o império. Vamos as ruas e preparar o Brasil para derrotar a farsa da anistia e eleger um novo Congresso em 2026 para garantir nosso democracia e soberania”, conclamou.

Manifesto

Durante o ato foi lançado o “Manifesto pela Soberania Nacional – A soberania do Brasil não se negocia!”. O manifesto denuncia também as ações de Trump e a colaboração de brasileiros para o aprofundamento das sanções contra a economia brasileira e aos ministros do STF, caso das articulações do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-RJ) e seus aliados.

Entre as diversas entidades presentes estavam ABI, OAB, CUT, CTB, Sindicato dos Engenheiros, UNE, PT, PCdoB, PSB, PDT, PSOL, UFRJ, Uerj, Universidade Rural do Rio de Janeiro.

Ação permanente

Centrais Sindicais, sindicatos, associações, universidades públicas, movimentos sociais, acadêmicos, estudantes, artistas, organizações e partidos de esquerda, parlamentares, profissionais liberais e militantes estiveram presentes para apoiar a mobilização que se inicia com a instauração de uma Assembleia Permanente pela Soberania. O objetivo é estar vigilante e atuante até que cessem as agressões externas e sensibilizar a sociedade.

 Julgamento para a história

Bolsonaro será o primeiro presidente da história do Brasil a ser julgado por uma tentativa de golpe de Estado. Os cinco ministros da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) – Alexandre de Moraes, Carmen Lúcia, Cristiano Zanin, Flávio Dino e Luiz Fux – , a partir de 2 de setembro, analisarão se o ex-presidente e outros sete auxiliares, entre eles militares, tramaram impedir a posse do presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, para se manterem no poder.

O julgamento se refere ao núcleo crucial da trama golpista. Eles respondem por 5 crimes: tentativa de abolição violenta do Estado democrático de Direito; tentativa de golpe de Estado; participação em organização criminosa armada; dano qualificado; deterioração de patrimônio tombado. O relator do caso é o ministro Alexandre de Moraes. A condução das sessões caberá ao presidente do colegiado, ministro Cristiano Zanin. O julgamento está programado para ir até 12 de setembro.

A partir da denúncia do Procurador-Geral da República (PGR), Paulo Gonet, a ação penal também é um marco para os militares que nunca foram julgados por quaisquer crimes contra a democracia, vide 1964, e pode levar à prisão de integrantes das Forças Armadas.

Como disse a jornalista Míriam Leitão, em sua coluna, esse julgamento e suas consequências não são pouco coisa num país que carrega no seu DNA intervencionismo militar, golpes e tentativas de golpes, em que conspiradores e golpistas sempre contaram com a certeza da impunidade.

Réus

O núcleo crucial é formado por: Jair Bolsonaro, ex-presidente da República; Alexandre Ramagem, ex-diretor da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) e hoje deputado federal; Almir Garnier, ex-comandante da Marinha; Anderson Torres, ex-ministro da Justiça; Augusto Heleno, ex-ministro do GSI (Gabinete de Segurança Institucional); Mauro Cid, ex-ajudante de ordens da Presidência; Paulo Sérgio Nogueira, ex-ministro da Defesa; Walter Braga Netto, ex-ministro da Casa Civil.
No caso de Ramagem, parte das acusações foi suspensa por causa de seu mandato. Os crimes ligados a dano ao patrimônio público e tombado só poderão ser julgados quando ele deixar a Câmara.

A UFRJ realizou audiência pública para dar detalhes e colher sugestões ao processo de alienação de 11 unidades pertencentes à universidade no edifício Ventura Corporate Towers na avenida República do Chile, 330, no Centro, endereço nobre, do complexo corporativo com duas torres de 34 andares cada, com classificação “Triple A”, que indica alta qualidade e localização superior.

A audiência – transmitida pelo Youtube –, cumpre etapa recomendável do processo de licitação que acontecerá em breve, segundo o cronograma exposto na audiência: em setembro, publicação do edital da alienação; em outubro, o leilão.  Entre novembro e dezembro, prazo para recurso e comunicação dos locatários para que exerçam ou não o direito de preferência. Entre dezembro e janeiro, formalização do vencedor com assinatura do contrato.

A alienação das 11 unidades do Ventura, aprovada pelo Conselho Universitário em agosto de 2024, faz parte do projeto de valorização de ativos para captação de recursos, e tem como finalidade uma permuta: a área total de 16.663 metros quadrados dos andares da UFRJ, em troca de construção de novas instalações. Entre as quais:

Salas de aula no Centro de Ciências da Saúde (CCS), na Escola de Educação Física; restaurante universitário na Faculdade de Letras e em Macaé; finalização do edifício Fronteiras, no CCS; do edifício do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH) e do Centro de Ciência Jurídicas e Econômica (CCJE) no Fundão; do Instituto de Matemática e do de Química, do Centro de Ciências Humanas e da Natureza; um novo edifício da Escola de Música e o edifício B da EM (Centro de Letras e Artes).

UFRJ precisa é de orçamento

Diante da escassez de orçamento, defende a Reitoria, a transação seria um caminho para investimento na infraestrutura acadêmica e em obras pendentes. Mesmo assim, o assunto foi controverso na sessão do Consuni que acabou por aprovar a inciativa, em agosto de 2024. Os trabalhadores técnicos-administrativos haviam definido em assembleia geral sua posição: a luta é por recomposição orçamentária da universidade –, uma das bandeiras da greve de 113 dias da categoria.  A preocupação geral é de que a esqualidez financeira conduza os gestores a buscar cada vez mais saídas na lógica do setor privado.

“A negociação das salas do Ventura, é mais uma das soluções “criativas”, quando, na verdade o que a instituição precisa é de orçamento público e não de ter que se desfazer de seu patrimônio para poder concluir as obras. Não podemos perder a perspectiva da recomposição orçamentária”, criticou o Sintufrj à época.

JMM está fora

“Acho que vai acontecer do jeito que está previsto e acho que a expectativa do reitor é que isso, dando certo, seja modelo para outros processos do gênero”, comentou o estudante Gabriel da Silveira, do Centro Acadêmico da Escola de Belas Artes. Ele questionou, na audiência, como se formou a lista das prioridades. O prédio em que estuda, o Jorge Machado Moreira, é o que mais precisa de reparos e que demandaria mais gastos, segundo levantamento do Escritório Técnico Universitário.

“Eles responderam que (a proposta) passou por todas as instâncias. Mas o JMM tem risco de pegar fogo e de se perder um acervo histórico. Por que (priorizar) salas de aulas e laboratórios em um prédio e não em outro?”, questionou.

Audiência defende solução

Flavio Papelbaum, chefe do Departamento de Soluções Imobiliárias do BNDES, explicou que o projeto representa R$ 251 milhões de reais. Que é uma compra e venda que conjuga a obrigação de se fazer obras de contrapartida propostas pela universidade.  Disse ainda que a escritura de compra e venda só seria celebrada na entrega das obras e, em caso de inadimplência, haveria multas e sanções.

Valores e prazos

Fonte: documentação disponível na página de anúncio da audiência pública

“Em nenhum país do mundo houve produção científica sem investimento na infraestrutura e em pessoal. Ciência não se acha no supermercado. É produzida nos laboratórios por pessoas que promovem conhecimento científico”, disse na audiência o pró-reitor, Fernando Peregrino.

Ele comentou o que foi apontado pelo estudante, sobre a assimetria dos investimentos, explicando que as prioridades estiveram em pauta em várias reuniões e colegiados na universidade.

E chamou atenção para o notório subfinanciamento no orçamento de capital (como nas demais universidades públicas), especialmente as federais, com queda de recursos para investimentos em infraestrutura, por exemplo. Isso somado ao fato de que os 11 andares elevam despesa da UFRJ, por exemplo, com condomínio. Ele acrescenta: “Não estamos dando nada para ninguém, estramos trocando por investimento”.

Ato Campinho fica!
Movimento UFRJ não esta a venda.
Rio, 02/02/23