Num discurso para a história, aplaudido em diversos momentos, Lula abriu a 80ª Assembleia Geral da ONU, nesta terça-feira, 23, em Nova York, denunciando que atentados à soberania, sanções arbitrárias e intervenções unilaterais estão se tornando a regra.
Em um discurso de pouco mais de cinco minutos foi aplaudido cinco vezes, entre as quais, quando sustentou a soberania do Brasil
“Quando a sociedade internacional vacila na defesa da paz, da soberania e do direito, as consequências são trágicas. Em todo o mundo, forças antidemocráticas tentam subjugar as instituições e sufocar as liberdades. Cultuam a violência, exaltam a ignorância, atuam como milícias físicas e digitais, e cerceiam a imprensa Mesmo sob ataque sem precedentes, o Brasil optou por resistir e defender sua democracia, reconquistada há quarenta anos pelo seu povo, depois de duas décadas de governos ditatoriais. (…) A agressão contra a independência do Poder Judiciário é inaceitável”, disse ele, apontando que essa ingerência em assuntos internos conta com o auxílio de uma extrema direita subserviente e saudosa de antigas hegemonias.
Lula apontou que, pela primeira vez em 525 anos de história, um ex-chefe de Estado foi condenado por atentar contra o Estado Democrático de Direito num processo minucioso com direito a ampla defesa. “Diante dos olhos do mundo, o Brasil deu um recado a todos os candidatos a autocratas e àqueles que os apoiam: nossa democracia e nossa soberania são inegociáveis. Seguiremos como nação independente e como povo livre de qualquer tipo de tutela”.
Além das críticas a autocratas, muitas vezes em clara referência a Trump, sem citá-lo, Lula também tocou em diversos outros temas sensíveis para a geopolítica internacional. “Nada, absolutamente nada, justifica o genocídio em curso em Gaza. Ali, sob toneladas de escombros, estão enterradas dezenas de milhares de mulheres e crianças inocentes. Ali também estão sepultados o Direito Internacional Humanitário e o mito da superioridade ética do Ocidente”, disse ele.

Guerra contra a pobreza
Lula abordou também a crise climática, do que, segundo ele, bombas e armas nucleares não vão nos proteger,: “O ano de 2024 foi o mais quente já registrado.
A COP30, em Belém, será a COP da verdade. Será o momento de os líderes mundiais provarem a seriedade de seu compromisso com o planeta”..
Sobre a fome, ponderou: “A pobreza é tão inimiga da democracia quanto o extremismo. Por isso, foi com orgulho que recebemos da FAO a confirmação de que o Brasil voltou a sair do Mapa da Fome neste ano de 2025. Mas no mundo, ainda há 670 milhões de pessoas famintas. Cerca de 2,3 bilhões enfrentam insegurança alimentar. A única guerra de que todos podem sair vencedores é a que travamos contra a fome e a pobreza”.
E a regulação das redes digitais que, segundo ele, têm sido usadas para semear intolerância, misoginia, xenofobia e desinformação. “A internet não pode ser uma “terra sem lei”. Cabe ao poder público proteger os mais vulneráveis. Regular não é restringir a liberdade de expressão. É garantir que o que já é ilegal no mundo real seja tratado assim no ambiente virtual. Ataques à regulação servem para encobrir interesses escusos e dar guarida a crimes, como fraudes, tráfico de pessoas, pedofilia e investidas contra a democracia”.
Trump faz discurso de autopromoção, critica o Brasil mas convida Lula para reunião
O discurso de Lula – endossado pelos aplausos efusivos de representantes de dezenas de países – foi seguido do de Trump. Logo após as críticas severas de Lula, que conclamou o mundo a resistir a autocratas, o discurso de Trump foi centrado em suas próprias realizações, ataque a imigrantes, a energias renováveis e à ONU.
Entre um e outro, ambos se esbarraram no plenário, quando Trump se dirigiu a Lula sugerindo um encontro na próxima semana.
Surpreendendo ainda mais, quando disse que, por cerca de 39 segundos, teve “uma excelente química. Ele me pareceu um homem muito agradável. Eu gostei dele, e só faço negócios com pessoas de quem gosto”.
Isso depois das sanções que impôs ao país, como tarifas de 50% a produtos brasileiros exportados aos americanos mencionando entre as causas o processo criminal por tentativa de golpe do ex-presidente Jair Bolsonaro. No discurso ele justificou com dados inverídicos como o fato do Brasil usar tarifas injustas contra os Estados Unidos. Só que o Brasil coleciona déficits na relação comercial com os Estados Unidos.
Mas, os bolsonaristas devem estar a arrancar cabelos diante do aceno de Trump para uma reunião diretamente com Lula. Quem sabe uma porta aberta para se discutir seriamente relações comerciais e dirimir sua confusão com retaliação política para garantir a impunidade de Bolsonaro.

O Sintufrj lamenta a morte de Pedro Rosa, dirigente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação da UFF e militante da Corrente Socialista dos Trabalhadores – CST.












