No nublado e frio 24 de julho jovens e veteranos reuniram-se nas escadarias da Câmara dos Vereadores para celebrar esse que é o Dia Municipal da Comunicação Popular. Um dia especial, que marca 10 anos da morte de um de seus grandes incentivadores, Vito Giannotti, referência em mídias voltadas para os trabalhadores e formação de comunicadores populares e profissionais engajados.
Por isso, todos os anos o Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC), o qual Vito foi um de seus fundadores, reúne dirigentes, jornalistas sindicais e comunicadores populares em rodas de conversas e apresentações de trabalhos. Neste 24 de julho foi montada barraca com fotos, jornais e materiais da comunicação popular e realizada duas rodas de conversa, uma sobre comunicação popular e outra sobre comunicação popular e defesa do SUS.
O destaque, além da presença dos veteranos, foi a participação da juventude periférica. Foram apresentadas experiências levadas pelos jovens como o Centro Socialista da Penha Circular, coletivo formado por trabalhadores e estudantes que atua na zona da Leopoldina com o objetivo de fortalecer o poder popular comunitário e as lutas dos trabalhadores da região. E o jornal comunitário Manguinhos On-line, feito por e para moradores.
Numa das muitas histórias e informações sobre Vito partilhadas na Cinelândia foi informado pelo seu companheiro de militância na oposição metalúrgica de São Paulo, Sebastião Neto, que um curso pré-vestibular leva seu nome. É o Cursinho Popular Vito Giannotti que além da preparação para as provas fomenta a reflexão crítica da sociedade, abordando tema como classe, trabalho, cultura, opressões, dentre outras questões.
Vito, presente!
Vito Giannotti, operário italiano, dirigente sindical, jornalista, escritor, educador e comunicador popular foi uma personalidade de múltiplas características que dedicou sua vida a combater a exploração. Um militante apaixonado dos movimentos populares que junto com a companheira e jornalista Cláudia Santiago transformou o NPC num centro de treinamento, formação e reflexão.
Cláudia Santiago conta que o trabalho do NPC começou quando a comunicação sindical estava no auge, isso há 31 anos. Havia cinco jornais diários e uma gama de profissionais espalhados pelo país trabalhando nos sindicatos.
“Na década de 1990 diria que a comunicação sindical estava no auge, inclusive do ponto de vista da sua profissionalização. Nós éramos muito profissionais atuando. Se juntasse todos os profissionais do brasil inteiro atuando só do campo da Central Única dos Trabalhadores nós tínhamos uma redação do tamanho das organizações Globo. Éramos muitos. Além da importância do fortalecimento da ideia de que os trabalhadores têm que ter a sua própria comunicação, nós trabalhamos muito o formato dos jornais por que ainda havia entre nós jornais que pareciam muito antigos do ponto de vista de não ter fotografia, ilustrações, olho, todos esses elementos do jornalismo, do projeto gráfico, que a gente considera importantes. Eram tijolaços, como definia o Vito. Temos certeza que o NPC ajudou muito nisso.”
Outro ponto que o NPC atuou foi no aprimoramento da linguagem, isto é, na facilitação de seu entendimento, de forma simples e clara para os trabalhadores.
“Em muitos jornais e ainda havia uma linguagem muito carregada, Era o politiquês, o sindicalês, o juridiquês, o economês, era uma linguagem que não servia para chegar aos trabalhadores. Não era um a linguagem que se fala no mundo real. Trabalhamos muito nisso. E trabalhamos também a formação porque a gente entendia que para ser jornalista sindical precisa conhecer a história, a luta dos trabalhadores e precisa entender de economia. A gente não queria pouco! E nos preocupávamos ainda com a memória. Como toda essa produção da comunicação sindical ia ser guardada, preservada e apreciada pelos trabalhadores.”
Hoje os dias são bem diferentes, vivemos a era das fake news e o avanço do fascismo, impondo desafios enormes para a comunicação dos trabalhadores. Cláudia Santiago afirma que não é um mundo fácil para a comunicação, para o mundo progressista e para a esquerda.
“Como a classe trabalhadora não está no seu auge, como o sindicalismo não está no seu auge, a comunicação também não está no seu auge. Alguns departamentos de comunicação diminuíram ao invés de crescer, houve uma diminuição do jornalismo, da reportagem, da entrevista. Foram elementos que batemos muito forte na comunicação sindical e esses elementos foram substituídos com o advento da internet. Com o advento da internet passou-se a contratar gente que faz meme engraçado, que ganhe e que tem que patrocinar. Ou seja, não é um momento fácil para a comunicação, para o mundo progressista, para o mundo da esquerda. É um momento de impulsionamento de grandes corporações e essas redes de ódio que alimentam e mudam a forma como as pessoas se comunicam e atuam na vida.”
Comunicação popular
Cláudia Santiago relata que o trabalho com a comunicação popular foi iniciado com as chacinas do morro do Borel, na Tijuca, e da Candelária, no centro do Rio. Aliás, surgiu de uma provocação dela como jornalista da CUT-Rio à direção sobre a pauta nas periferias.
“Na chacina do Borel quatro jovens negros foram assassinados. Levei para a CUT o fato perguntando porque a comunicação sindical não se comunicava com as periferias e porque a comunicação sindical não tratava da vida do trabalhador no seu local de trabalho. E comecei uma briga dentro da comunicação sindical para começar a levar a pauta das favelas para a comunicação sindical. Foi uma batalha. Comecei a falar em racismo há exatamente 20 anos, quando teve a Chacina do Borel. Também fui muito afetada pela Chacina da Candelária e comecei a falar do extermínio da juventude negra.”
Assim, ela começou também a estimular a comunicação da periferia através do Curso de Comunicação Popular do NPC.
“Entendi que uma coisa que eu poderia fazer era estimular a comunicação da própria periferia. Sabia que tinha estudantes de comunicação nas favelas e de jornalistas que moravam na favela. Eu entendia que eram eles que deveriam tratar isso na favela. Então, através de contato com jovens de pré-vestibulares comunitários montamos a primeira turma do Curso de Comunicação Popular do NPC da qual veio fazer parte a mãe de uma das vítimas da Chacina do Borel que hoje é uma grande amiga minha, a Maria Dalva. Ela fez duas vezes o curso.”
Cláudia explica que o curso surgiu então com um viés de fazer frente á violência policial através da formação de seus participantes. Voltado para os moradores das periferias, favelas, jovens negros. E se diz satisfeita por despertar e incentivar o sentido de pertencimento e cidadania dessa parcela da população que toma para si sua própria verdade e linguagem.
“E aí começamos com esse curso de comunicação popular com esse objetivo para enfrentar a violência policial. O extermínio da juventude negra continua. O que mudou nesses 20 anos? É o que está se vendo nas escadarias da Câmara dos Vereadores. É a juventude negra das periferias que está sentada na Câmara dos vereadores. Era isso que eu queria. Eles fazem a comunicação. A ideia é incentivá-los a construir sua própria comunicação. Então criamos o curso de comunicação popular com o mesmo programa didático da comunicação sindical. Por exemplo, uma ex-jornalista do Sintufrj, a Ana Lúcia Vaz, vai dar aula de entrevista e reportagem esse sábado [26 de julho] na turma de comunicação popular do NPC. Depois eu vou dar aula de pauta e de como montar o seu jornal. E eles saem do curso e vão à luta.”
Legado militante
A deputada estadual Renata Souza (Psol), cria da favela da Maré e jornalista, foi aluna do NPC. Ela celebrou a memória, a vida e o legado de Vito, destacando sua influência na luta contra as desigualdades sociais e na comunicação popular. Giannotti foi lembrado por Renata por ensinar a importância de uma comunicação acessível e engajada, abordando questões de classe, raça, gênero e território. Ela ressaltou a necessidade de continuar a batalha pela transformação social em diversas frentes, como comunicação comunitária, parlamento, universidades, sindicatos e favelas.
“Se Vito Giannotti existe, porque é muito difícil falar do Vitor no passado, ele existe porque a luta nos chamou, A luta nos convocou, a todos nós a não aceitarmos que as desigualdades sociais pudessem matar a nossa classe trabalhadora, que pudesse matar todos os dias a juventude negra, pobre, favelada dentro das favelas e periferias. Então, a vida de Giannotti continua nos ensinando a não só nos comunicarmos, a não só narrarmos as nossas dores, mas continua servindo para que a gente pense na revolução que queremos e podemos, na revolução que está na luta de cada um de nós, seja na comunicação comunitária, seja no parlamento, seja dentro da universidade, seja dentro dos sindicatos, seja dentro das favelas e periferias.”
Carolina Vaz, coordenadora do jornal O Cidadão, jornal do Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (SEASM), compartilhou sua experiência no NPC e destacou a importância do jornal como ferramenta de emancipação, respeito e valorização da comunidade, Elar relembrou sua trajetória na comunicação popular, influenciada por Vito Giannotti, e enfatizou o legado de Giannotti na formação de profissionais engajados, politizados e próximos da comunidade. Ela expressou sua gratidão ao NPC e alegria em ver pessoas de diferentes gerações unidas pelo mesmo propósito.
“Eu fui da última turma que teve o Vito Giannotti como professor no curso de comunicação popular do meio do ano do NPC. Era muito nova nesse meio, foi há dez anos, tinha saído da universidade. Então a minha entrada na comunicação popular foi uma desconstrução de todos os quadradinhos que eu tinha aprendido na universidade. Foi um caminho, eu acho, diferente de algumas pessoas, né? O Vito, no início, assustava porque ele falava palavrão, ele era muito expansivo. Mas a gente conseguia reconhecer a ternura e a paixão que ele tinha em ser um professor. Com certeza, o legado que ele deixa, além dos livros, além das obras, é a gente aqui também. É esse nosso modo de ser que é politizado, é combativo, mas é do beijo, é do abraço, é do encontro. Eu acho que tá tudo representado aqui. Eu reconheço pessoas que eu vejo há muitos anos e eu reconheço pessoas novas. E eu sinto uma alegria de ver as pessoas que eu conheço há muito tempo estão aqui junto comigo no mesmo propósito. E as pessoas novas que eu penso que estão descobrindo o que eu descobri dez anos atrás, sabe, de como é importante fazer esse trabalho, de como é valioso, de como é emancipador.”
